O homem que não mudou o mundo

by davidraimundo

Trago-vos hoje a história de um homem distinto. Deixo ao vosso critério se se trata de uma história bonita e inspiradora ou se, pelo contrário, promove a tristeza e o desencanto. Seja como for, sublinho que se trata de uma história baseada em factos reais.

Foi considerado um menino prodígio. Em tudo quanto fazia revelava capacidades cognitivas acima da média. Funcionalidade, criatividade e raciocínio lógico eram atributos notórios. Recebia constantemente louvores dos pais e dos professores e era incentivado a sonhar alto. Na adolescência afirmava, com convicção, que estava a crescer e a aprender para um dia mudar o mundo e essa audácia valia-lhe aprovação geral. Depositava-se nele toda a sorte de expectativas enquanto galgava com excelência as várias etapas escolares.

Chegou à idade adulta com a convicção profunda de que estava destinado a concretizar obras grandiosas. Passava os dias num esforço intensivo para se preparar. Analisava os jornais e devorava documentários para conhecer a actualidade com todo o detalhe e rigor. Estudava as teses dos filósofos e dos sociólogos, desde os seus contemporâneos até aos pensadores mais antigos. Em cada estudo procurava encontrar elementos válidos que, juntos, formassem um puzzle revolucionário e eficaz para atingir as suas magníficas metas. Desenvolveu planos extraordinários cuja pertinência era testada em conversas com amigos e conhecidos. Ganhou a fama de ser um homem genial e começou a receber visitas de todo o mundo. Gente que viajava com o objectivo de o conhecer, ouvir as suas ideias e discutir o mundo e a tão desejada mudança.

Recebia todas as visitas com satisfação, sentado na poltrona confortável da sua sala de estar. Ali mandava servir chá ou café, consoante a preferência das visitas, e proporcionava-lhes horas de discussão intelectualmente estimulante. Apresentava os seus planos e os resultados que esperava obter após a sua implementação. Expunha os pormenores da forma como iria enfrentar cada problema. Afirmava, visita após visita, que era uma questão de tempo até passar à prática. Em breve iria mudar o mundo, só precisava de se preparar um bocadinho melhor… Um ou outro visitante mais afoito tentou fazer-lhe ver que talvez houvesse algo mais importante do que planos teóricos para mudar o mundo: empreender esforços concretos para mudar – de facto! – o seu pequeno mundo. Mas mesmo quem assim o interrogava acabava por se ver convencido pela riqueza e pela pujança das ideias daquele homem. Todos os visitantes voltavam para as suas vidas exclamando para quem quisesse ouvir: “não há dúvida, é mesmo um homem admirável!”. Assim foram passando os anos. Muita preparação, muitas visitas, muitos cafés e chás, muitas conversas na sala de estar.

Hoje em dia já não é possível encontrar este homem na poltrona da sala de estar. O único local onde podemos visitá-lo é no cemitério. Aí já não é possível escutar as suas ideias geniais e agora não há ninguém que nos sirva chá ou café quando o visitamos. Como memorial da sua identidade resta apenas a lápide sobre a sepultura. Lá pode ler-se uma inscrição intrigante e irónica: ‘só preciso de me preparar um bocadinho melhor’.

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