Autobiografia do Arrependimento

by davidraimundo

O meu nome é Arrependimento. Assim fui baptizado pelo meu pai e pela minha mãe há muitas décadas atrás. O trabalho dos meus pais levava-os a percorrer países de todos os continentes e cidades de todos os países, pelo que na minha infância fiz amigos por todo o mundo.

Mas à medida que cresci fui percebendo que, regra geral, os meus amigos não demonstravam muito entusiasmo quando eu abria a boca para expressar as minhas opiniões. Deve ter sido essa a razão para que logo de miúdo me tenha tornado um gajo calado. Muitos confundiram o meu silêncio com timidez, porém não foi a timidez mas a estupefacção que me levou a ser ponderado no falar e desenvolveu em mim um espírito de observação e de perspicácia invulgares. Infelizmente, foram raras as ocasiões em que pude aplicar esse talento para ajudar as pessoas… elas sempre preferiram não me escutar.

Durante o meu percurso escolar mantive-me próximo de um punhado de amigos que, segundo me parece, prezavam a minha companhia desde que eu mantivesse o meu característico low profile. Mas muitas vezes sofri troça e rejeição e também uma certa perseguição que hoje em dia talvez fosse considerada bullying.

Calado, ultrapassei tudo isso. Fui para a universidade estudar a mente humana e as matérias do coração. Lá não consegui fazer amizades profundas, mas dei-me com alguns fulanos que me pareceram boa onda. Mais que não fosse, eram companhia para uma cerveja ou uma bica, e era bom ter alguém com quem comparar os apontamentos e esclarecer uma ou outra dúvida.

Mas foi na universidade que vivi um dia fatídico, o prenúncio de toda a minha idade adulta. Estava a ser anunciada uma festa no campus e eu decidi comparecer por saber que a gente conhecida estaria por lá. Enquanto me arranjava naquele dia – roupas da moda, barba aparada, todo um visual que me caía bem – deixei que as expectativas se elevassem. Ao contrário da convicção geral, eu sou um gajo que gosta de uma boa festa. E a malta universitária não podia ser tão imatura quanto os adolescentes das escolas anteriores, pensava eu. Imaginei que poderia dançar e rir com aquele pessoal e, assim, dar uma de extrovetido naquela noite, divertindo-me como não acontecia há muito tempo.

Acontece que só ao chegar percebi qual era o lema daquela festa: Carpe Diem. Torci o nariz. Depois vi que no palco onde iriam actuar as bandas tinham colocado uma faixa enorme que dava o mote para a noite: segue o que sentes. Quando vi aquilo, o meu estômago começou a enrolar-se. Mesmo assim decidi ficar para ver no que dava. Mas fui muito mal recebido. Não precisei de usar toda a minha perspicácia para perceber que ninguém me queria ali. Eu atrapalhava o espírito da festa ao ponto de terem decidido que o melhor seria convidarem-me a sair: “pedimos ao Arrependimento que abandone o recinto imediatamente para que a festa possa continuar sem quaisquer percalços”, foi o que às tantas soou nas colunas. Assim fiz.

Foi naquele dia que percebi que a minha vida seria irremediavelmente muito mais solitária do que eu planeara. Aceitei esse destino com resignação. Tentei levar uma vida pacata, metido comigo mesmo, ocupando-me com os meus trabalhos teóricos em torno das matérias do coração e afins. Decidi trabalhar em casa e sair pouco.

Mas sempre que saía de casa para ir ao supermercado ou à repartição de finanças ou a qualquer outro serviço, sentia que a minha presença irritava todos os que sabiam quem eu era. Os amigos de outrora atravessavam a estrada para não se cruzarem comigo. As pessoas evitavam-me, escondiam o rosto e seguiam o seu caminho cheias de uma raiva sem sentido: eu nunca fiz mal a ninguém, caraças! Por vezes podia ouvir gente a segredar entre si: “não suporto mais ver aquele fulano a deambular por aí” ou “havia de desaparecer de vez para nunca nos perturbar o juízo”.

Um dia estava em casa a ver televisão e surge no ecrã uma notícia de última hora: um homicídio horrível acontecera nas redondezas. O assassino tinha conseguido escapar sem que fosse identificado. Foi então que irrompeu uma conspiração gigantesca: houve quem visse naquele episódio uma oportunidade de se livrarem de mim. Mesmo sem provas ou testemunhas, eu fui acusado do crime. Na verdade era impossível que alguém pudesse testemunhar o que quer que fosse, uma vez que no dia do crime e nos três dias anteriores eu não tinha saído de casa, embrenhado que estava no meu trabalho.

Naquela altura já o povo dizia “o arrependimento mata” como provérbio popular (absurdo, convenhamos). Foi por isso muito fácil convencer a opinião pública de que eu era culpado e merecia mão pesada.

Forças especiais foram à minha casa prender-me. Não ofereci resistência. Fui considerado culpado e condenado a isolamento perpétuo “para que jamais possa afectar a paz dos outros”. Agora vivo encarcerado num cubículo. Estou a ficar velho e cansado e decidi escrever as minhas memórias, aproveitando as tardes em que alguns raios de sol entram pelas frestas da janela minúscula. Estou longe da vista de todos e é até possível que aqueles que me conheceram já se tenham esquecido de que fiz parte das vidas deles. Sinto-me só, pois as únicas pessoas que vejo são os médicos e os guardas que vêm cá de tempos a tempos e estou proibido de lhes falar. Mas a solidão não me entristece porque sempre a conheci. Ainda assim, não posso negar que há no meu íntimo um último desejo e confesso que tenho uma réstia de esperança de o ver realizado: que alguém me faça uma derradeira visita. Talvez um dos amigos de outrora. Ou, quem sabe, alguém que eu nunca tenha conhecido pessoalmente, mas que, ao se aperceber da sentença injusta que cumpro, decida vir conhecer-me.

Sim. Coloco agora um ponto final na escrita das minhas memórias e o mundo não ouvirá mais de mim. Mas a quem me fizer uma derradeira visita, a esse, bem-aventurado, comunicarei verdades inefáveis que aqui não posso expressar.

Anúncios