Neemias: o homem que não faz perguntas

by davidraimundo

Quando Neemias nasceu não mandaram fazer uma pequena pulseira de ouro com o seu nome gravado. Há naquela terra distante outro costume: os familiares visitam o recém nascido e oferecem aos papás muitos adjectivos que, mais tarde, serão posse do menino. Levam o feliz, o abastado, o magnífico e o inteligente dentro de saquinhos bordados que são guardados sobre a cómoda até ao dia em que o menino passa a ter idade para os usar.

No entanto, a crise que cá se faz sentir também assola a terra distante de Neemias. As pessoas vão ao mercado em busca de adjectivos bonitos para recém nascidos, mas os muitos adjectivos que outrora eram apreciados são agora raros. O mais comum e mais barato é o saquinho com normal. Não admira assim que a maioria dos saquinhos bordados que estavam sobre a cómoda do quarto de Neemias fossem saquinhos cheios de normal.

Neemias cresceu e começou a usar os adjectivos que lhe estavam reservados. Primeiro parecia um rapaz calmo e feliz, mas cedo se percebeu que não era brilhante. Bondoso, talvez. Mas nada brilhante porque, com tanta dose de normal, Neemias tornou-se um rapaz apagado e desinteressante.

Sabe-se hoje, por estudos recentes, que um adjectivo administrado em doses muito concentradas pode não só anular o efeito dos outros adjectivos, como pode até tornar-se contagioso. Foi isso que aconteceu na terra de Neemias. A quantidade de normal que ele transportava no peito era tão grande que transbordou peito fora e começou a contagiar. Primeiro, os seus pais e irmãos. Depois, toda a comunidade e todo aquele povo que mora na terra distante. A normalidade tornou-se rainha e senhora do povo.

Sei que houve há pouco tempo uma expedição à terra de Neemias. Jornalistas, sociólogos, neurologistas e linguistas deslocaram-se a essa terra distante e encontraram um povo resignado. Os relatórios que resultaram dessa expedição descrevem as pessoas como aborrecidas e melancólicas. Os neurologistas descobriram que a força do adjectivo alterou as sinapses, pelo que aquelas pessoas já não processam a informação da mesma forma que nós. É tudo mecanizado de uma forma crua, quase desumana. Os linguistas descobriram uma coisa surpreendente: os pontos de interrogação caíram em desuso e já não são usados na escrita daquele povo. Aliás, os jornalistas estranharam o facto de não lhes ter sido feita qualquer pergunta pelas pessoas com quem falaram. As pessoas limitaram-se a responder de forma superficial às perguntas que lhes foram feitas sem revelar o mínimo de curiosidade ou interesse.

A história de Neemias já é conhecida há muito tempo, mas os relatórios recentes pintam um cenário bem mais catastrófico do que aquele que eu imaginava. Li os relatórios atentamente e percebi que os profissionais que levaram a cabo a expedição não acreditam na recuperação daquele povo. Diz-se que o povo está condenado ao enfado, que é a encarnação de uma filosofia doentia: a filosofia que tudo encara como normal.

Apesar dos relatórios, eu ainda tenho esperança. Por muita força que tenha um adjectivo, há palavra para além dele. Há nome, pronome e preposição. E há verbo que arranca dos corações a letargia.

No meio da azáfama quotidiana, dou por mim a imaginar o epílogo da história de Neemias. Acredito que ele, mesmo trémulo e inseguro, há-de um dia usar novamente a interrogação. A pergunta nascerá no seu espírito e ganhará forma mesmo que ele a trate com desconfiança. Ainda que desconexa e balbuciada, a pergunta ganhará voz. Depois, será uma questão de tempo até que Neemias ouça a resposta. Ao ouvir, sentar-se-à, chorará e a lamentação será sua companhia por algum tempo.

Por fim, Neemias levantar-se-à e viverá.

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