Apologia da bancarrota Suíça

by davidraimundo

No princípio era o tempo.

À tardinha um homem contemplava alegre o vento e outro escutava distraído o silêncio. Uma mulher esperava no alpendre, mas se lhe perguntassem não saberia dizer o que esperava. O Eterno oferecera o tempo a essa gente. Gente que era, portanto, dona do tempo.

À noite homens, mulheres e crianças juntavam-se no pátio. As histórias eram contadas, as canções eram cantadas, os bebés eram acolhidos nos colos das mães e os laços de afecto eram fortalecidos sem pressa. Nesses momentos quotidianos, o Eterno aparecia para ver o que os homens e mulheres tinham feito com o tempo que lhes oferecera. Aprovava o uso do tempo e ordenava que se calassem todas as ampulhetas que os humanos guardam no peito para que a riqueza daqueles momentos se eternizasse nos corações.

Isto aconteceu no princípio, segundo contam os velhos mais velhos de todos. Numa época em que os cabos de alta tensão ainda não tinham feito as suas viagens acidentadas com destino a todas as praças e aldeias recônditas do interior. A luz que havia de noite era a luz do próprio tempo. Eram as estrelas, a lua e outros astros luminosos que as noites de hoje já não conhecem. Havia também a luz daquela gente. Gente de coração repleto de tesouros que o tempo ajudava a lapidar.

Contam também os velhos mais velhos de todos que aqueles homens e mulheres um dia abdicaram do tempo. Um negociante de outras paragens aliciou-os: pretendo adquirir o tempo e cabe-vos estabelecer quanto tenho de pagar por ele.

Inicialmente o negociante encontrou resistência: o tempo não estava à venda! Como poderiam estabelecer um preço para um bem que lhes tinha sido oferecido pelo Eterno? Impensável!

Mas o negociante teimou: pensem nos planos que poderão desenvolver e nas obras que poderão empreender… Se aceitarem a minha oferta, tudo vos será acessível!

Foram convocados os anciãos para discutir a proposta do negociante. A pouco e pouco, as objecções foram sendo vencidas pela sedução que acompanhava aquela proposta: tudo vos será acessível!

Os homens e mulheres iludidos venderam o tempo por uma soma que lhes parecia incontável. E o negociante levou o tempo para outras terras.

Quanto aos homens e às mulheres, esses depressa se viram a braços com uma tarefa prioritária e que esgotava gradualmente todos os seus muitos recursos: fabricar relógios. Era necessário um relógio perfeito porque agora o tempo era escasso.

Eu cheguei cá depois do princípio. Não sou do tempo em que havia tempo. Mas tenho razões para crer que os velhos mais velhos de todos sabem do que falam, pois sinto nos meus ossos que o tempo nos foi roubado. Sinto que o meu coração definha e anseia que as ampulhetas calem e que o Eterno o visite.

Hoje não tenho tempo. Tenho apenas uma voz que me diz: ouve bem, não contemples coisa alguma! Não esperes no alpendre, rapaz, muito menos se é uma espera sem motivo. Produz. Produz algo. Não sabes quanto tempo tens, por isso não pares. Faz algo palpável.

Para sossegar a voz, produzo um texto no blog.

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