Pontos e contos de um cristão pós-moderno

Month: Agosto, 2013

Os aldeões e o vinho

Conta-se que havia em tempos uma aldeia rodeada de vinhas onde se desenrolou uma história que muito nos diz acerca do coração humano:

As videiras frutificavam nas encostas e planícies em redor daquela aldeia, sem qualquer esforço e sem necessidade de cuidado. Todos os anos davam uvas das castas mais diversas e mais distintas, sempre de qualidade inegável. Mas não havia ninguém na aldeia que conhecesse a arte de fazer vinho, pelo que o povo não sabia que os cachos de uvas roxas e luzidias poderiam ter esse nobre fim. Saboreavam as uvas e usavam os cachos ainda não amadurecidos nas decorações pomposas das cozinhas e dos pátios, mas a suavidade dos vinhos doces ou a robustez dos tintos que daquelas uvas se poderia obter, isso eles não conheciam nem sequer adivinhavam.

Até que um dia se fixou por ali um enólogo de excelência – embora naquele tempo não fosse usado o termo enólogo, pelo que os aldeões o baptizaram simplesmente de Enigmático, título que mostrava que não sabiam ao certo em que consistia a ciência daquele homem nem a sua proveniência ou seu nome de família.

Este homem misterioso conhecia não só a ciência do vinho, mas tinha também a intuição necessária para cuidar das vinhas e do processo de colheita, selecção, fermentação e tudo o mais, com arte e requinte. Esta é a intuição que, na forma de uma espécie de dom, está destinada àqueles que encontram na agricultura e nos campos o seu habitat natural, àqueles que estabelecem uma relação com a realidade rural que parece, aos olhos dos citadinos, uma relação quase mística.

O sr. Enigmático decidiu investir ali alguns dos seus recursos:  pediu aos aldeões que lhe fosse permitido comprar uma parte da colheita para produzir vinho, construiu uma pequena mas bem apetrechada adega e contratou alguns aldeões aos quais deu formação para que pudessem ficar responsáveis pela implementação das sucessivas etapas de produção. Reuniu-se o comité da aldeia e concordou-se que a proposta do homem era aliciante. Chegaram a acordo quanto à verba a pagar e mostraram abertura para lhe dar todas as condições necessárias para que ele pudesse produzir o vinho.

A aldeia animou-se na expectativa de provar tão delicada bebida à qual jamais tinham tido acesso. O ambiente ali sempre tinha sido de tranquilidade, mas era também marcado pela melancolia ansiosa de quem aguarda por alguma coisa sem conseguir discernir que coisa é essa que se aguarda. Era uma aldeia que tinha vida, mas não tinha vigor. As pessoas consideravam-se felizes, mas não havia gozo genuíno nos corações.

Do sr. Enigmático recebiam agora promessa de algo que traria uma alegria renovada à aldeia. Perceberam esta promessa não tanto nas conversas que o homem fazia, mas mais nas entrelinhas dessas conversas e na sua postura tão enigmática. Entregaram-se à colheita com energia e depois deixaram o sr. Enigmático e os seus empregados entregues à tarefa de produzir a bebida que ele tanto elogiava. Foi-lhes explicado que o processo seria demorado, pois o vinho, sendo uma bebida delicada, exigia tempo de amadurecimento sob condições climatéricas cuidadosamente controladas. Mas com o passar das semanas e dos meses, a agitação generalizou-se. As pessoas passavam propositadamente pela adega para saber como decorria o processo e quanto tempo demoraria até que o vinho fosse distribuído. O sr. Enigmático respondia invariavelmente que estava para breve, mas não podia ser apressado pois isso iria afectar a qualidade do produto.

Até que, para contentamento geral, foi anunciado o dia da primeira sessão de provas aberta a todos os habitantes. A aldeia compareceu em peso na praceta junto à adega. Foram distribuídos pequenos copos de cristal e foi pela primeira vez aberta uma garrafa de vinho naquela aldeia. Coube ao sr. Enigmático o gesto simbólico de desarrolhar a garrafa com um saca-rolhas rudimentar – ferramenta que nunca antes tinha sido utilizada na aldeia. Ao aplauso barulhento seguiu-se o acto de servir o vinho e, depois, as exclamações e interjeições de aprovação por parte daqueles que iam sucessivamente provando a bebida.

Aquela primeira sessão de provas foi um sucesso que surpreendeu até o próprio sr. Enigmático. Todos ganharam um novo fôlego, todos pressentiram que as suas vidas estavam prestes a ter significado e sentido como nunca antes tinham tido. Todos quiseram de imediato adquirir garrafas para consumo caseiro e ofereceram quantias exageradas para convencer o sr. Enigmático. Este apressou-se a esclarecer que todo o vinho produzido seria colocado à disposição dos aldeões, mas o comércio do vinho teria de ser feito segundo os seus princípios: ele entregaria gratuitamente a cada aldeão a quantidade de bebida adequada tendo em conta múltiplos factores. Alguns desses factores eram óbvios – a idade, a composição do agregado familiar, a maturidade da pessoa – mas outros não eram tão óbvios e o sr. Enigmático informou que se escusaria a revela-los (importa dizer que, desde que chegara à aldeia, o sr. Enigmático não se tinha apenas dedicado à produção do vinho; tinha também procurado conhecer cuidadosamente o coração de cada aldeão, empregando nisso toda a sua perspicácia e sensibilidade).

Foi assim que funcionou durante muitos anos a adega dessa aldeia: os habitantes eram atendidos pelo sr. Enigmático num anexo apropriado que foi construído junto da adega e a cada um era dada a porção de vinho que lhe era devida. O sr. Enigmático parecia saber sempre qual era a medida certa para cada pessoa, pelo que, inicialmente, todos ficavam plenamente satisfeitos. O gozo inundava a alma das pessoas e todos viviam numa celebração constante e jovial que fazia esquecer por completo a melancolia outrora existente.

Mas é então que a nossa história começa a ficar preta. Quando os aldeões passaram a ver o vinho como um produto vulgar, quando cada prova deixou de trazer em si o efeito surpresa e quando as colheitas já não eram valorizadas e acarinhadas, começaram a surgir gradualmente, e de forma sub-reptícia, reclamações nas mentes (e mais tarde nas bocas) de alguns aldeões: qual a razão para esperar tanto tempo pela vinho resultante de cada colheita? porque é que não se experimentava a mistura entre a casta X e a casta Y? qual o motivo para me ser dada uma porção tão insignificante quando comparada com a do meu vizinho? etc. etc.

Quando estas questões ganharam voz, o sr. Enigmático colocou de lado os seus enigmas e respondeu taxativamente a todas as questões, dentro do que lhe era possível (como é óbvio, nem toda a ciência e intuição das quais era dono podiam ser comunicadas usando linguagem compreensível pelos aldeões). Contudo, o ruído resultante das questões adensou-se e impediu que o povo escutasse o que lhe era explicado. Num ápice instalou-se um clima de contestação silenciosa na aldeia.

A situação ficou estável durante uns tempos, sendo apaziguada a cada nova colheita e sem que alguém confrontasse directamente o sr. Enigmático. Mas o espírito de celebração e alegria extinguiu-se e todos sabiam que a coisa ia descambar a qualquer momento. A revolta estava à espreita e os seus sinais eram visíveis, como um vulcão que se prepara para entrar em erupção e envia pequenos sismos como aviso.

E a revolta surgiu mesmo. Um dia o comité da aldeia decidiu que estava na hora de apresentar um ultimato ao sr. Enigmático: o vinho teria de passar a ser comercializado segundo os termos dos aldeões, abdicando o sr. Enigmático dos seus bizarros princípios. Queriam ser eles a gerir a adega, as produções, as decisões quanto às quantidades distribuídos, o tempo de envelhecimento e tudo o resto. Agradeciam que o sr. Enigmático continuasse a trabalhar na produção do vinho, mas obedecendo às instruções do povo. Caso contrário, tomariam posse da adega e expulsariam o sr. Enigmático.

Perante aquele ultimato, o sr. Enigmático respondeu, com angústia, que não podia aceitar o que lhe estava a ser pedido. Afirmou que os seus princípios eram essenciais para que o vinho produzido os pudesse satisfazer e dar-lhes vigor e alegria. Disse com frontalidade aos aldeões que estavam a cometer um erro de consequências catastróficas, pois nunca mais conseguiriam produzir um vinho excelente que os voltasse a satisfazer. Apelou a que se lembrassem como era a vida na aldeia antes da sua chegada e a que voltassem a valorizar o vinho que produzia e a encontrar nele contentamento.

Porém, os aldeões, possuídos pelo mau espírito da auto-suficiência, não quiseram escutar o sr. Enigmático. Perante a recusa dele, expulsaram-no da adega avisando-o para que nunca mais lá entrasse nem tentasse interferir na produção do vinho. Ele não ofereceu resistência. Deixou a adega e alugou uma casa à saída da aldeia, permanecendo discreto por ali enquanto assistia com uma tristeza imensa aos disparates que os homens começaram a fazer.

Primeiro, assaltaram o stock do sr. Enigmático. Invadiram as caves e cada um tomou para si a porção que os seus olhos desejava. O melhor vinho alguma vez produzido no mundo foi esbanjado pelos aldeões. Vinho precioso que foi feito com todo o cuidado para ser devidamente apreciado foi consumido sem qualquer respeito ou reconhecimento. Os habitantes da aldeia embriagaram-se com o melhor vinho. Viciaram-se, estragaram-se, perderam noção de si mesmos e perderam por completo a consciência do valor que aquele vinho tinha.

Depois, quando do stock já só restavam garrafas partidas por todo o lado e homens alcoolizados pelas ruas e vielas, convenceram os empregados da adega a produzir mais vinho tentando aplicar o que o sr. Enigmático lhes tinha ensinado. Claro que, sem a supervisão de quem era realmente especialista, o resultado foi uma zurrapa cujo sabor era horrível e que nem para sarar feridas deveria servir. Mas o sabor já pouco lhes importava. Perderam o paladar e só interessava beber mais, mais e mais…

O sr. Enigmático observava toda aquela decadência sem que pudesse agir. Os ébrios não tinham condições para o escutar e os sóbrios só queriam estar ébrios. Ainda assim tinha, por vezes, oportunidade de socorrer um ou outro aldeão que, ciclicamente, lhe vinha pedir ajuda, algo que muito regozijava o seu coração.

A aldeia, essa, ficou célebre por ser morada de gente intoxicada, gente que já não sente o odor do próprio vómito, gente que transformou uma fonte de alegria numa fonte de promiscuidade. Esta história não tem um final feliz. A aldeia não recuperou a alegria, a adega não foi devolvida ao sr. Enigmático, o vinho não voltou a ter qualidade, o alcoolismo não deixou de se generalizar. Mas, mesmo sem um final feliz, a história tem, a meu ver, uma aplicação feliz:

Da mesma forma que os aldeões maltrataram o vinho que o sr. Enigmático lhes providenciou, assim maltrata o homem a liberdade que Deus lhe deu.

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A omnipresença de Deus

“E Jesus, dando um grande brado, expirou. E o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo.” Marcos 15

No sistema religioso judaico, o templo simbolizava a presença de Deus. Aliás, tratava-se na prática, de algo mais radical que um simples simbolismo: de certo modo, os judeus acreditavam que a presença pessoal do próprio Deus estava confinada ao templo. Nesta estranha concepção de Deus – como poderia o Deus omnipresente e Todo-Poderoso ser aprisionado em quatro paredes? – o templo continha em si a glória, o poder, a majestade e o terror do Senhor Deus. O Senhor Todo-Poderoso que causava terror ao povo, porque raramente o povo conseguiu compreender que Ele era também – sempre foi! – o Senhor do amor.

A divisão mais sagrada do templo chamava-se Santíssimo Lugar, uma sala à qual só o sacerdote tinha acesso – e apenas uma vez por ano – para realizar o sacrifício de um cordeiro para expiação dos pecados do povo. Esta divisão estava separada do resto do templo por um véu de grandes dimensões (10 cms de espessura, 13,5 m de altura e 13,5m de largura).

Jesus Cristo viveu numa sociedade baseada no sistema religioso judaico. Cresceu como um judeu, estudou as escrituras nas sinagogas judaicas, recrutou judeus como discípulos, irritou a elite judaica e foi crucificado pelos judeus. Os evangelistas relatam que, no momento em que Jesus morreu, este enorme véu rasgou-se de alto a baixo.

Qual o significado deste acontecimento? Os judeus que vieram a crer que Cristo era a encarnação do próprio Deus interpretaram o rasgar do véu como um sinal de que o acesso a Deus é agora livre. Qualquer pessoa pode agora entrar no Lugar Santíssimo por intermédio do sacrifício de Cristo.

Mas também gosto muito de pensar neste acontecimento numa direcção diferente: não é só um sinal de que ficamos com o caminho aberto para entrarmos no Lugar Santíssimo e aí termos contacto pessoal com Deus; é também um sinal de que Deus não pode estar confinado a quatro paredes. O véu rasga-se porque nenhum lugar por mais santo que seja pode conter Deus. Ele rompe véus, rompe paredes de templos, rompe fronteiras, rompe preconceitos, e faz-se presente em todos os lugares, em todos os contextos, para todas as pessoas, de todos os tempos. Creio que esta sempre foi a realidade, por mais que nós, homens, não a consigamos entender. Uma realidade revelada de forma mais visível, bela e definitiva em Jesus Cristo.

Um dos nomes atribuídos a Jesus é Emanuel, que significa Deus connosco (Mateus 1:23). Jesus é Deus connosco. A revelação de Deus aos homens faz-se na forma que melhor podemos compreender: na forma de um de nós. Com Jesus conhecemos o Deus que ri, que chora, o Deus que ofereceu Graça aos homens, o Deus que sofreu e que, por ter sofrido, entende o sofrimento do homem.

Por isso podemos crer que quando alguém no mundo ri por experimentar a vida abundante que há para vivermos, Deus está lá e ri também. Podemos crer que quando alguém no mundo tem o coração dilacerado e chora, Deus está lá presente e chora também. Podemos crer que quando um homem em alguma parte do mundo se prepara para um acto de graça, Deus está lá a incentivar. Podemos crer que o sofrimento humano é também o sofrimento de Deus.

O véu rasgou-se. Deus não se deixa aprisionar por sistemas religiosos, nem por teologias bem elaboradas, nem pelas ideias de um grupo de iluminados, nem por raciocínios brilhantes, nem por sectarismos ou por ateísmos ou quaisquer outros ismos. Deus não se deixa aprisionar! Não é exclusivo de uma cultura, de uma etnia, de uma classe social… Não é exclusivo de ninguém! É para os pobres e para os ricos, para os que acreditam nele e para os que não acreditam, para os que amam e para os que odeiam, para os que choram e para os que riem, para os portugueses, os búlgaros e os habitantes do Vanuatu.

Podemos celebrar porque Ele é Deus de todos e para todos. Em todos os momentos, em todos os contextos, Deus está connosco. Não há véus e não há rituais que nos levem à presença de Deus. Porque já estamos na presença de Deus. E na presença de Deus não há necessidade de terror: se colocarmos os olhos na cruz, reconhecemos que o que move Deus é o Amor. Infindável, belo e fascinante Amor.

Deus está contigo.

O antídoto

Desde que me conheço carrego dentro do meu peito um mal terrível: carrego em mim toda a insegurança do mundo. Quão trágicas são as consequências desta doença! É um tumor cujas metástases corroem as entranhas do meu ser: o preconceito, a desconfiança, a inveja e o egoísmo apoderaram-se de mim, corromperam-me, estragaram-me.

Numa tentativa de auto-regeneração, que acontece muitas vezes de forma irreflectida ou mesmo inconsciente, tenho tendência para indexar a compreensão que tenho de mim próprio ao meu curriculum vitae e ao rol das minhas supostas boas obras (ou de obras que tenha feito em prol daqueles que eu quero que me tenham em boa conta).  Afiro o meu valor através de uma comparação com os outros, como se eu e os outros fossemos somente produtos cotados numa qualquer praça financeira e o nosso valor subisse e descesse conforme a ditadura dos mercados.

O medo é o meu motor, é o catalisador das minhas acções. Medo de não merecer uma cotação elevada. Medo de não ter em mim mérito suficiente para justificar o meu valor ou sequer a minha existência. Será que sou suficientemente bom? Será que aquilo que faço me garante a aprovação do meus pares? Será que…?

Gente sábia alertou-me para a realidade desta doença que, apesar de todos os avanços da ciência, não é detectada nas análises clínicas comuns. Comecei a procurar uma solução, uma forma de retardar a evolução da doença ou mesmo um antídoto, uma cura. Ouvi contar da existência de um remédio para quem sofre do mesmo mal que eu e um dia encontrei esse remédio num local dedicado à cura dos males do homem, um local chamado Gólgota. Um tubo de ensaio continha uma solução e no rótulo constava apenas uma palavra grega: χάρις.

Descobri que este antídoto tomado em doses frequentes constitui de facto uma maravilhosa cura. Não imediata, mas gradual e cada vez mais eficaz à medida que o organismo suporta doses mais potentes. Por vezes esqueço-me de tomar o antídoto e os sintomas da doença voltam a agravar. Mas posso afirmar que estou em recuperação, pois agora sei o que é a segurança e sei o que é não ter medo. O verdadeiro antídoto lança fora o medo.

Só a poesia é verdade

Ainda iludido pelo modernismo, persigo a verdade. Busco a tese irredutível que encerre em si toda a sabedoria humana, todo o fundamento da vida. Procuro uma fórmula que descreva a verdade como se fosse a álgebra a regente da vida. Acumulo conhecimento e tento juntá-lo num puzzle que dê resposta a todas as questões existenciais. Eu quero ter a verdade! Como se a verdade fosse um objecto que eu pudesse exibir orgulhosamente na palma da minha mão: “Aqui está a verdade! achei-a e vejam quão perfeita e completa ela é!…”

A verdade há-de ser uma soma de doutrinas, penso eu, um encadeamento infalível de teorias absolutas e imutáveis que o homem pode alcançar mediante o empenho intelectual. Mas que esforço estúpido! Que zelo inglório! Por mais que a persiga, a verdade esfuma-se, esconde-se, disfarça-se, escapa-se pelos atalhos e encruzilhadas de um mundo que já não é a preto e branco.

E, às vezes, em momentos de rara lucidez, reconheço: bendito seja o pós-modernismo e todo o relativismo que ele traz na sua bagagem! Quão afortunados somos nós por vivermos na era do cepticismo! Creio que o relativismo é o melhor amigo da verdade – isto se for um relativismo honesto, um relativismo que diga a si próprio: se sou relativista, vou sê-lo até ao fim!

O relativismo ensina que ninguém tem a verdade, pois esta não é um objecto cuja posse eu possa reivindicar. Não há fórmulas infalíveis, nem há teses exclusivas para expressar a essência da vida. Mas o relativismo não ensina que não há verdade, até porque seria auto-contraditório se ensinasse tal coisa. É então este relativismo que nos dá espaço para uma sugestão maravilhosa: a verdade não é passível de posse, a verdade é apenas passível de vivência.

Assim, talvez não sejam os cientistas ou os teólogos que estão mais perto da verdade, porque a verdade não se comunica com matemática nem com doutrina. Talvez não seja ao nível do intelecto que se vive a verdade, mas sim ao nível do coração. E, por isso, talvez sejam os poetas quem mais se aproxima da verdade! Não tanto os poetas que escrevem poesia, mas os poetas que vivem poesia… Talvez a verdade exista, viva, forte e dinâmica. Talvez a verdade seja o Amor, a Graça, a Reconciliação. E talvez a verdade seja uma Pessoa, um judeu carpinteiro de uma aldeia da Galileia.

O homem que não mudou o mundo

Trago-vos hoje a história de um homem distinto. Deixo ao vosso critério se se trata de uma história bonita e inspiradora ou se, pelo contrário, promove a tristeza e o desencanto. Seja como for, sublinho que se trata de uma história baseada em factos reais.

Foi considerado um menino prodígio. Em tudo quanto fazia revelava capacidades cognitivas acima da média. Funcionalidade, criatividade e raciocínio lógico eram atributos notórios. Recebia constantemente louvores dos pais e dos professores e era incentivado a sonhar alto. Na adolescência afirmava, com convicção, que estava a crescer e a aprender para um dia mudar o mundo e essa audácia valia-lhe aprovação geral. Depositava-se nele toda a sorte de expectativas enquanto galgava com excelência as várias etapas escolares.

Chegou à idade adulta com a convicção profunda de que estava destinado a concretizar obras grandiosas. Passava os dias num esforço intensivo para se preparar. Analisava os jornais e devorava documentários para conhecer a actualidade com todo o detalhe e rigor. Estudava as teses dos filósofos e dos sociólogos, desde os seus contemporâneos até aos pensadores mais antigos. Em cada estudo procurava encontrar elementos válidos que, juntos, formassem um puzzle revolucionário e eficaz para atingir as suas magníficas metas. Desenvolveu planos extraordinários cuja pertinência era testada em conversas com amigos e conhecidos. Ganhou a fama de ser um homem genial e começou a receber visitas de todo o mundo. Gente que viajava com o objectivo de o conhecer, ouvir as suas ideias e discutir o mundo e a tão desejada mudança.

Recebia todas as visitas com satisfação, sentado na poltrona confortável da sua sala de estar. Ali mandava servir chá ou café, consoante a preferência das visitas, e proporcionava-lhes horas de discussão intelectualmente estimulante. Apresentava os seus planos e os resultados que esperava obter após a sua implementação. Expunha os pormenores da forma como iria enfrentar cada problema. Afirmava, visita após visita, que era uma questão de tempo até passar à prática. Em breve iria mudar o mundo, só precisava de se preparar um bocadinho melhor… Um ou outro visitante mais afoito tentou fazer-lhe ver que talvez houvesse algo mais importante do que planos teóricos para mudar o mundo: empreender esforços concretos para mudar – de facto! – o seu pequeno mundo. Mas mesmo quem assim o interrogava acabava por se ver convencido pela riqueza e pela pujança das ideias daquele homem. Todos os visitantes voltavam para as suas vidas exclamando para quem quisesse ouvir: “não há dúvida, é mesmo um homem admirável!”. Assim foram passando os anos. Muita preparação, muitas visitas, muitos cafés e chás, muitas conversas na sala de estar.

Hoje em dia já não é possível encontrar este homem na poltrona da sala de estar. O único local onde podemos visitá-lo é no cemitério. Aí já não é possível escutar as suas ideias geniais e agora não há ninguém que nos sirva chá ou café quando o visitamos. Como memorial da sua identidade resta apenas a lápide sobre a sepultura. Lá pode ler-se uma inscrição intrigante e irónica: ‘só preciso de me preparar um bocadinho melhor’.

Não se brinca com palavras

Em todas as casas e em todas as infâncias há pelo menos um brinquedo proibido. Não se brinca com o fogo, dizem alguns pais, com as facas da cozinha, dizem outros. São apenas dois dos exemplos mais frequentes, mas certamente encontramos recomendações destas para todos os gostos e geralmente com nexo: não se brinca com o estojo de costura da mãe, não se brinca com armas de plástico (muito menos com a caçadeira herdada do avô e que vive trancada naquele móvel do sótão), não se brinca com comida, não se brinca com tomadas eléctricas… Só avisos pertinentes!

Mas conheço uma casa onde o brinquedo proibido é muito invulgar e há que duvidar da sua pertinência: a criança está proibida de brincar com palavras. Quando da boca da criança começaram a sair frases um pouco mais compostas – tudo o que ia além de vocábulos isolados – os pais rapidamente tomaram medidas para assegurar que a criança não usava palavras em vão. Repreendiam qualquer tipo de divagação no falar para que a criança aplicasse somente os termos estritamente necessários.

Para que o ensino oficial não contaminasse a criança com figuras de estilo, ela foi educada em casa, pelos pais. Aprendeu cedo todo o rigor da gramática. Enquanto as outras crianças da mesma idade trocavam complementos e predicados sem qualquer pudor, perante a complacência – e até o riso! – dos adultos, aquela criança aplicava as regras da sintaxe com perfeição sempre que tinha necessidade de construir uma frase mais comprida.

Para esta criança o dicionário é uma ferramenta de estudo essencial, e até de devoção, de modo a garantir que nunca cometa o pecado capital: usar uma palavra ou expressão fora de contexto. Até aqui a criança tem sido o orgulho dos pais. Quando brinca com as outras crianças, admoesta-as repetindo até à exaustão o aviso lá de casa: não se brinca com palavras, diz ela de forma veemente, chocada com o que ouve.

Os pais fundaram uma organização que se bate pela causa das monossílabas e depositam muita esperança na continuidade do seu trabalho por parte da criança. Dedicam a vida a este estranho activismo, mas, por usarem poucas palavras, estão conscientes de que os resultados do trabalho requerem tempo e que talvez só a próxima geração conheça efeitos significativos da sua luta. Temo-los visto a tentar ganhar espaço nos media para, assim, propagarem a prática do silêncio, o culto das frases curtas e pragmáticas, e a abolição de todas as espécies de floreados verbais.

O pai e a mãe da criança são almas gémeas. As metáforas seriam parte essencial de uma história de amor para qualquer casal, excepto para este casal que encara a metáfora como uma heresia hedionda. A literalidade é a âncora deste casamento. Se algum dia um deles incorrer na prática de eufemismo, hipérbole ou mesmo anástrofe, o mais certo é o casamento desmoronar. Mas esse é um perigo meramente teórico uma vez que eles empenham todo o cuidado e vigilância para que a literalidade não seja nunca beliscada.

E é esse mesmo cuidado e vigilância que esperam da criança. Até hoje, e segundo ouço dizer, ela tem sido fiel à causa. Mas não lhe conhecemos o futuro. É possível que venha a assimilar a doutrina dos pais e que venha um dia a presidir à organização que eles fundaram. Mas também é possível que, ou por rebeldia ou por suspeitar que se esconde algo de rico para lá da literalidade, ela comece a brincar com as palavras e, quem sabe, faça poesia.

Apologética em dois parágrafos

O homem não existe. Pesei todos os argumentos que o afirmam e também aqueles que suportam a hipótese contrária e digo-vos que esta é a única conclusão racional. A fé na existência do homem constitui apenas um escape, uma espécie de paliativo para que a nossa condição não nos seja tão pesada. É uma fé que pertence aos fracos, aos que não querem encarar os factos com pragmatismo e crueza. Uma fé para alimentar a falsa esperança de que haja vida para além disto… um terrível engano!

Se o homem existisse, não haveria tanto sofrimento no mundo. A razão diz-me que se ele existisse não permitiria tantas lágrimas, tanta miséria, tanta desgraça. Certamente arregaçaria as mangas e interviria. A justiça, a cooperação, o amor – que os seus crentes dizem ser uma virtude do homem – espalhar-se-iam no mundo pela sua acção. Ora, olhando para o mundo, constatamos que nada disto acontece. Não necessito assim de refinar os argumentos para defender a minha conclusão, pois é a lógica empírica que a dita: o homem não existe.

Autobiografia do Arrependimento

O meu nome é Arrependimento. Assim fui baptizado pelo meu pai e pela minha mãe há muitas décadas atrás. O trabalho dos meus pais levava-os a percorrer países de todos os continentes e cidades de todos os países, pelo que na minha infância fiz amigos por todo o mundo.

Mas à medida que cresci fui percebendo que, regra geral, os meus amigos não demonstravam muito entusiasmo quando eu abria a boca para expressar as minhas opiniões. Deve ter sido essa a razão para que logo de miúdo me tenha tornado um gajo calado. Muitos confundiram o meu silêncio com timidez, porém não foi a timidez mas a estupefacção que me levou a ser ponderado no falar e desenvolveu em mim um espírito de observação e de perspicácia invulgares. Infelizmente, foram raras as ocasiões em que pude aplicar esse talento para ajudar as pessoas… elas sempre preferiram não me escutar.

Durante o meu percurso escolar mantive-me próximo de um punhado de amigos que, segundo me parece, prezavam a minha companhia desde que eu mantivesse o meu característico low profile. Mas muitas vezes sofri troça e rejeição e também uma certa perseguição que hoje em dia talvez fosse considerada bullying.

Calado, ultrapassei tudo isso. Fui para a universidade estudar a mente humana e as matérias do coração. Lá não consegui fazer amizades profundas, mas dei-me com alguns fulanos que me pareceram boa onda. Mais que não fosse, eram companhia para uma cerveja ou uma bica, e era bom ter alguém com quem comparar os apontamentos e esclarecer uma ou outra dúvida.

Mas foi na universidade que vivi um dia fatídico, o prenúncio de toda a minha idade adulta. Estava a ser anunciada uma festa no campus e eu decidi comparecer por saber que a gente conhecida estaria por lá. Enquanto me arranjava naquele dia – roupas da moda, barba aparada, todo um visual que me caía bem – deixei que as expectativas se elevassem. Ao contrário da convicção geral, eu sou um gajo que gosta de uma boa festa. E a malta universitária não podia ser tão imatura quanto os adolescentes das escolas anteriores, pensava eu. Imaginei que poderia dançar e rir com aquele pessoal e, assim, dar uma de extrovetido naquela noite, divertindo-me como não acontecia há muito tempo.

Acontece que só ao chegar percebi qual era o lema daquela festa: Carpe Diem. Torci o nariz. Depois vi que no palco onde iriam actuar as bandas tinham colocado uma faixa enorme que dava o mote para a noite: segue o que sentes. Quando vi aquilo, o meu estômago começou a enrolar-se. Mesmo assim decidi ficar para ver no que dava. Mas fui muito mal recebido. Não precisei de usar toda a minha perspicácia para perceber que ninguém me queria ali. Eu atrapalhava o espírito da festa ao ponto de terem decidido que o melhor seria convidarem-me a sair: “pedimos ao Arrependimento que abandone o recinto imediatamente para que a festa possa continuar sem quaisquer percalços”, foi o que às tantas soou nas colunas. Assim fiz.

Foi naquele dia que percebi que a minha vida seria irremediavelmente muito mais solitária do que eu planeara. Aceitei esse destino com resignação. Tentei levar uma vida pacata, metido comigo mesmo, ocupando-me com os meus trabalhos teóricos em torno das matérias do coração e afins. Decidi trabalhar em casa e sair pouco.

Mas sempre que saía de casa para ir ao supermercado ou à repartição de finanças ou a qualquer outro serviço, sentia que a minha presença irritava todos os que sabiam quem eu era. Os amigos de outrora atravessavam a estrada para não se cruzarem comigo. As pessoas evitavam-me, escondiam o rosto e seguiam o seu caminho cheias de uma raiva sem sentido: eu nunca fiz mal a ninguém, caraças! Por vezes podia ouvir gente a segredar entre si: “não suporto mais ver aquele fulano a deambular por aí” ou “havia de desaparecer de vez para nunca nos perturbar o juízo”.

Um dia estava em casa a ver televisão e surge no ecrã uma notícia de última hora: um homicídio horrível acontecera nas redondezas. O assassino tinha conseguido escapar sem que fosse identificado. Foi então que irrompeu uma conspiração gigantesca: houve quem visse naquele episódio uma oportunidade de se livrarem de mim. Mesmo sem provas ou testemunhas, eu fui acusado do crime. Na verdade era impossível que alguém pudesse testemunhar o que quer que fosse, uma vez que no dia do crime e nos três dias anteriores eu não tinha saído de casa, embrenhado que estava no meu trabalho.

Naquela altura já o povo dizia “o arrependimento mata” como provérbio popular (absurdo, convenhamos). Foi por isso muito fácil convencer a opinião pública de que eu era culpado e merecia mão pesada.

Forças especiais foram à minha casa prender-me. Não ofereci resistência. Fui considerado culpado e condenado a isolamento perpétuo “para que jamais possa afectar a paz dos outros”. Agora vivo encarcerado num cubículo. Estou a ficar velho e cansado e decidi escrever as minhas memórias, aproveitando as tardes em que alguns raios de sol entram pelas frestas da janela minúscula. Estou longe da vista de todos e é até possível que aqueles que me conheceram já se tenham esquecido de que fiz parte das vidas deles. Sinto-me só, pois as únicas pessoas que vejo são os médicos e os guardas que vêm cá de tempos a tempos e estou proibido de lhes falar. Mas a solidão não me entristece porque sempre a conheci. Ainda assim, não posso negar que há no meu íntimo um último desejo e confesso que tenho uma réstia de esperança de o ver realizado: que alguém me faça uma derradeira visita. Talvez um dos amigos de outrora. Ou, quem sabe, alguém que eu nunca tenha conhecido pessoalmente, mas que, ao se aperceber da sentença injusta que cumpro, decida vir conhecer-me.

Sim. Coloco agora um ponto final na escrita das minhas memórias e o mundo não ouvirá mais de mim. Mas a quem me fizer uma derradeira visita, a esse, bem-aventurado, comunicarei verdades inefáveis que aqui não posso expressar.

Neemias: o homem que não faz perguntas

Quando Neemias nasceu não mandaram fazer uma pequena pulseira de ouro com o seu nome gravado. Há naquela terra distante outro costume: os familiares visitam o recém nascido e oferecem aos papás muitos adjectivos que, mais tarde, serão posse do menino. Levam o feliz, o abastado, o magnífico e o inteligente dentro de saquinhos bordados que são guardados sobre a cómoda até ao dia em que o menino passa a ter idade para os usar.

No entanto, a crise que cá se faz sentir também assola a terra distante de Neemias. As pessoas vão ao mercado em busca de adjectivos bonitos para recém nascidos, mas os muitos adjectivos que outrora eram apreciados são agora raros. O mais comum e mais barato é o saquinho com normal. Não admira assim que a maioria dos saquinhos bordados que estavam sobre a cómoda do quarto de Neemias fossem saquinhos cheios de normal.

Neemias cresceu e começou a usar os adjectivos que lhe estavam reservados. Primeiro parecia um rapaz calmo e feliz, mas cedo se percebeu que não era brilhante. Bondoso, talvez. Mas nada brilhante porque, com tanta dose de normal, Neemias tornou-se um rapaz apagado e desinteressante.

Sabe-se hoje, por estudos recentes, que um adjectivo administrado em doses muito concentradas pode não só anular o efeito dos outros adjectivos, como pode até tornar-se contagioso. Foi isso que aconteceu na terra de Neemias. A quantidade de normal que ele transportava no peito era tão grande que transbordou peito fora e começou a contagiar. Primeiro, os seus pais e irmãos. Depois, toda a comunidade e todo aquele povo que mora na terra distante. A normalidade tornou-se rainha e senhora do povo.

Sei que houve há pouco tempo uma expedição à terra de Neemias. Jornalistas, sociólogos, neurologistas e linguistas deslocaram-se a essa terra distante e encontraram um povo resignado. Os relatórios que resultaram dessa expedição descrevem as pessoas como aborrecidas e melancólicas. Os neurologistas descobriram que a força do adjectivo alterou as sinapses, pelo que aquelas pessoas já não processam a informação da mesma forma que nós. É tudo mecanizado de uma forma crua, quase desumana. Os linguistas descobriram uma coisa surpreendente: os pontos de interrogação caíram em desuso e já não são usados na escrita daquele povo. Aliás, os jornalistas estranharam o facto de não lhes ter sido feita qualquer pergunta pelas pessoas com quem falaram. As pessoas limitaram-se a responder de forma superficial às perguntas que lhes foram feitas sem revelar o mínimo de curiosidade ou interesse.

A história de Neemias já é conhecida há muito tempo, mas os relatórios recentes pintam um cenário bem mais catastrófico do que aquele que eu imaginava. Li os relatórios atentamente e percebi que os profissionais que levaram a cabo a expedição não acreditam na recuperação daquele povo. Diz-se que o povo está condenado ao enfado, que é a encarnação de uma filosofia doentia: a filosofia que tudo encara como normal.

Apesar dos relatórios, eu ainda tenho esperança. Por muita força que tenha um adjectivo, há palavra para além dele. Há nome, pronome e preposição. E há verbo que arranca dos corações a letargia.

No meio da azáfama quotidiana, dou por mim a imaginar o epílogo da história de Neemias. Acredito que ele, mesmo trémulo e inseguro, há-de um dia usar novamente a interrogação. A pergunta nascerá no seu espírito e ganhará forma mesmo que ele a trate com desconfiança. Ainda que desconexa e balbuciada, a pergunta ganhará voz. Depois, será uma questão de tempo até que Neemias ouça a resposta. Ao ouvir, sentar-se-à, chorará e a lamentação será sua companhia por algum tempo.

Por fim, Neemias levantar-se-à e viverá.

Apologia da bancarrota Suíça

No princípio era o tempo.

À tardinha um homem contemplava alegre o vento e outro escutava distraído o silêncio. Uma mulher esperava no alpendre, mas se lhe perguntassem não saberia dizer o que esperava. O Eterno oferecera o tempo a essa gente. Gente que era, portanto, dona do tempo.

À noite homens, mulheres e crianças juntavam-se no pátio. As histórias eram contadas, as canções eram cantadas, os bebés eram acolhidos nos colos das mães e os laços de afecto eram fortalecidos sem pressa. Nesses momentos quotidianos, o Eterno aparecia para ver o que os homens e mulheres tinham feito com o tempo que lhes oferecera. Aprovava o uso do tempo e ordenava que se calassem todas as ampulhetas que os humanos guardam no peito para que a riqueza daqueles momentos se eternizasse nos corações.

Isto aconteceu no princípio, segundo contam os velhos mais velhos de todos. Numa época em que os cabos de alta tensão ainda não tinham feito as suas viagens acidentadas com destino a todas as praças e aldeias recônditas do interior. A luz que havia de noite era a luz do próprio tempo. Eram as estrelas, a lua e outros astros luminosos que as noites de hoje já não conhecem. Havia também a luz daquela gente. Gente de coração repleto de tesouros que o tempo ajudava a lapidar.

Contam também os velhos mais velhos de todos que aqueles homens e mulheres um dia abdicaram do tempo. Um negociante de outras paragens aliciou-os: pretendo adquirir o tempo e cabe-vos estabelecer quanto tenho de pagar por ele.

Inicialmente o negociante encontrou resistência: o tempo não estava à venda! Como poderiam estabelecer um preço para um bem que lhes tinha sido oferecido pelo Eterno? Impensável!

Mas o negociante teimou: pensem nos planos que poderão desenvolver e nas obras que poderão empreender… Se aceitarem a minha oferta, tudo vos será acessível!

Foram convocados os anciãos para discutir a proposta do negociante. A pouco e pouco, as objecções foram sendo vencidas pela sedução que acompanhava aquela proposta: tudo vos será acessível!

Os homens e mulheres iludidos venderam o tempo por uma soma que lhes parecia incontável. E o negociante levou o tempo para outras terras.

Quanto aos homens e às mulheres, esses depressa se viram a braços com uma tarefa prioritária e que esgotava gradualmente todos os seus muitos recursos: fabricar relógios. Era necessário um relógio perfeito porque agora o tempo era escasso.

Eu cheguei cá depois do princípio. Não sou do tempo em que havia tempo. Mas tenho razões para crer que os velhos mais velhos de todos sabem do que falam, pois sinto nos meus ossos que o tempo nos foi roubado. Sinto que o meu coração definha e anseia que as ampulhetas calem e que o Eterno o visite.

Hoje não tenho tempo. Tenho apenas uma voz que me diz: ouve bem, não contemples coisa alguma! Não esperes no alpendre, rapaz, muito menos se é uma espera sem motivo. Produz. Produz algo. Não sabes quanto tempo tens, por isso não pares. Faz algo palpável.

Para sossegar a voz, produzo um texto no blog.