Pontos e contos de um cristão pós-moderno

O Bailado Divino

No evangelho escrito pelo apóstolo João, intrigam-me e apaixonam-me aqueles capítulos centrais e dramáticos que culminam com a prisão de Jesus. O evangelista teceu a narrativa de tal forma que, do capítulo 12 até ao capítulo 17, notamos uma intensidade crescente e uma tensão cada vez mais densa nos discursos de Jesus e nas reações dos discípulos. Talvez João não tenha tido consciência de que estava a redigir uma obra de arte literária, mas o facto é que o crescendo desta narrativa captura o meu coração e faz-me suster a respiração! Hoje detenho-me, em particular, no capítulo 14 e tento mergulhar nos mistérios ali insinuados por Jesus.

Aproxima-se a hora da sua morte e Jesus explica aos discípulos o que está prestes a acontecer. Mas as coisas de que fala são misteriosas, como se lhes falasse por enigmas.

“Na casa do meu Pai há muitos lugares e eu vou preparar lugar para vocês. Depois venho buscar-vos para que estejam onde eu estou.”

Falar sobre a essência de Deus é uma aventura metafísica e é certo que nenhum de nós está perfeitamente habilitado para tal. Os próprios autores bíblicos não arriscam demasiado no que respeita a definir Deus ou a listar os seus atributos e características. Afinal, eles também eram homens e mulheres que estavam a tatear uma realidade que se desdobra muito para além da compreensão humana. Temos vislumbres desta realidade e estamos autorizados a descrevê-la da melhor forma que conseguimos, mas, não raras vezes, faltam-nos as palavras e sobra-nos o assombro!… Talvez tenha sido por isso que, na terceira epístola de João (trata-se, provavelmente, do mesmo artista literário que já referimos), nos surge esta curta e singela definição: Deus é amor.

A este propósito, C. S. Lewis alerta-nos para a seguinte evidência: a declaração cristã Deus é amor só pode ter sentido real se Deus contiver, pelo menos, duas Pessoas. Porque o amor é algo que uma pessoa nutre em relação a outra pessoa e não tem existência concreta fora da dimensão relacional. Assim, continua C. S. Lewis, o que os cristãos pretendem dizer com a declaração Deus é amor é que “a atividade viva e dinâmica do amor tem acontecido em Deus desde sempre e que essa atividade é também a força criadora de tudo quanto existe”. Vislumbramos portanto um Deus cuja essência é o amor. E nas linhas dos evangelhos percebemos o alto calibre e beleza desse amor manifesto na relação de intimidade entre o Pai e o Filho e tão bem expresso naquela voz que se faz ouvir nas margens do rio Jordão: “este é o meu filho amado em quem tenho profundo prazer”.

“Quem me vê a mim, vê o Pai. Eu sou o caminho para o Pai. Acreditem que eu estou no Pai e que o Pai está em mim.”

Certo é que, naquele momento, os discípulos pouco ou nada conseguiriam absorver do real significado deste magnífico jogo de palavras. Era-lhes fácil entender e aceitar o Messias como um enviado divino. Afinal, tinha sido essa a expectativa dos judeus ao longo de séculos. Mas ainda lhes estava vedado o entendimento para que pudessem compreender que o Messias era, na verdade, o próprio Deus. Essa compreensão requeria uma absoluta transformação da cosmovisão dos discípulos. Estando enraizados num monoteísmo rígido que incluía uma extrema aversão a qualquer representação de Deus, era agora necessário virar do avesso os seus pressupostos mais profundos para que pudessem reconhecer, enfim, a verdadeira identidade do Mestre Nazareno. É por isso que, mais adiante, Jesus lhes diz que ainda teria muita coisa para lhes explicar, mas eles não poderiam suportar tais explicações naquele momento. Faltava-lhes conhecer um outro agente de transformação, uma outra manifestação do amor divino, uma outra Pessoa que os iria guiar em toda a verdade.

“Eu vou, mas não vos deixarei desamparados. Vou enviar-vos o Espírito da Verdade que habitará convosco e estará em vós.”

É desta forma que o capítulo 14 do Evangelho de João nos apresenta aquela estranha conversa entre Jesus e os discípulos, uma conversa em que, de forma vívida mas ainda muito misteriosa, Jesus fala da unidade entre o Pai, o Filho e o Espírito. Para dar algum sentido a esta ideia de que Deus, por ser essencialmente amor, é uma unidade perfeita de três pessoas, os chamados Pais da Igreja avançaram com a ideia da trindade.

Em termos mais precisos e sistemáticos, a trindade expressa a doutrina de que existe um só Deus em três pessoas divinas e consubstanciais: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Estas três pessoas são distintas, mas são uma mesma essência. Mas é através da poesia – e não tanto através da teologia sistemática – que melhor podemos esboçar a trindade.

Um dos conceitos que os Pais da Igreja utilizaram para expressar a trindade é o conceito de perichoresis, termo grego de complexa tradução: peri significa à volta ou em torno de, chorein significa conter, avançar ou dar espaço a. Ao utilizarem este termo, aqueles primeiros teólogos pretenderam criar uma imagem dinâmica do tipo de interpenetração e coabitação das três pessoas da trindade. Talvez essa imagem seja melhor compreendida se recorrermos a alguns teólogos que, mais recentemente, recuperaram este conceito para os nossos dias. Voltemos, então, ao C. S. Lewis que nos diz que, no Cristianismo, “Deus não é algo estático – nem é apenas uma pessoa – mas é uma atividade dinâmica e pulsante, viva, quase uma espécie de drama teatral. Quase, se isto não me fizer parecer demasiado irreverente, uma espécie de dança…”

Não, caro C. S. Lewis! Isso não é irreverência. Isso é, aos ouvidos do meu coração, poesia da mais bela! Perichoresis: a magnífica dança da trindade! E o Timothy Keller ajuda-nos a dar mais cor a esta imagem: “Cada uma das pessoas divinas centra-se nas outras. Nenhuma exige que as outras girem em torno de si. Cada uma delas voluntariamente circunda as outras duas derramando nelas amor, deleite e adoração. Cada pessoa da Trindade ama, adora, submete-se e regozija-se nas outras. Isso cria uma dança dinâmica e pulsante de alegria e amor.”

Será que conseguimos ler, em João 14, laivos da mesma poesia que o Tim Keller nos oferece? Laivos de perichoresis? Será que o evangelista, com ou sem intenção, acaba por pintar um quadro do bailado divino? Creio que sim e creio até que este quadro tem ainda pinceladas mais surpreendentes, nuances mais inverosímeis…

“Na casa do meu Pai há muitos lugares e eu vou preparar lugar para vocês. Depois venho buscar-vos para que estejam onde eu estou. Vou enviar-vos o Espírito da Verdade que habitará convosco e estará em vós. E então saberão que eu estou no Pai e vocês em mim e eu em vocês. Aqueles que me amam, guardam aquilo que eu digo, e o meu Pai os amará. ”

No século IV d. C., Atanásio de Alexandria teceu uma afirmação que soa escandalosa aos ouvidos protestantes: “Deus tornou-se homem, para que os homens se possam tornar deuses”. Sim, é uma afirmação que faz ativar os alarmes contra-heresia com que vêm equipados todos os bons protestantes. Por outro lado, também é, num certo sentido, uma afirmação profundamente bíblica se entendida à luz daquilo que nos é dito por meio da segunda epístola de Pedro: “Deus, pelo seu poder, concedeu-nos tudo o que é necessário para vivermos em santidade, ao dar-nos a conhecer aquele que nos chamou pela sua glória e poder. Foi assim que ele nos concedeu os grandes e preciosos dons que havia prometido, a fim de que tomem parte na natureza divina e fujam dos maus desejos da corrupção que existe no mundo.”

Este tomar parte na natureza divina… será que não é também o que está alinhavado em João 14? Será que a descida de Jesus ao sepulcro e a sua ressurreição foi a forma – misteriosa, pois claro – como Ele nos preparou lugar no Pai?

Creio que sim. E creio que podemos entender as aparições de Jesus ressurreto e, sobretudo, o Pentecostes, relatado no segundo capítulo do livro dos Atos dos Apóstolos, como evidências de que Jesus nos veio buscar – a todos quantos o amam – para estarmos n’Ele e Ele em nós. E como Ele está no Pai, nós também estamos no Pai – que é grande o suficiente para que N’Ele todos caibam, todos tenham lugar. E no Pentecostes é derramado o Espírito Santo, o Espírito da Verdade, que agora habita connosco. E, portanto, os que amam Jesus – que, nas suas próprias palavras, equivale a viver de acordo com o que Ele diz – habitam com o Pai, com o Filho e com o Espírito Santo. Isto significa que não nos é oculto o bailado divino, nem é suposto que sejamos como meros espectadores desse bailado. Pelo contrário, é como se as páginas da Bíblia, e João 14 em particular, nos lançassem o convite mais estranho e, ainda assim, mais apelativo: o convite para tomarmos parte na natureza divina ou, dito de outra forma, participarmos na perichoresis.

Tudo isto é demasiado místico e, por isso, a minha mente tão formatada por padrões de exagerada racionalidade é lenta a ceder a estas ideias. Mas, em contrapartida, tudo isto é demasiado belo e o meu coração não pode resistir a tamanha beleza.

Ainda há comunidades religiosas ditas cristãs que, de uma forma mais velada ou mais explícita, condenam e proíbem que os homens dancem, quando, afinal, dançar é tudo quanto os homens precisam!

Dançam as galáxias no universo, os astros no firmamento, os peixes, os cetáceos e os grandes mamíferos nos oceanos. Dança o vento, as árvores e os arbustos em infindáveis florestas, dança a areia em redemoinhos nos desertos. Dançam as palavras e as metáforas neste texto e a poesia nas relações humanas. Dançam o Pai, o Filho e o Espírito Santo em pura alegria e radioso amor e dessa dança chegam-nos vislumbres e pinceladas nas páginas das histórias bíblicas e nas páginas do drama humano, bem como o eco, o sussurro, a… cadência de um eterno e divinal convite.

Sobre a fé e o amor na política

Escrevia Assunção Cristas, num artigo publicado no Público em novembro passado, que “ao radicalismo dos populismos [devemos] responder com o radicalismo do amor”. Foi imediatamente criticada por políticos e comentadores da política por considerarem, de forma praticamente unânime, que Assunção Cristas utilizou tom e expressões mais adequados para uma homília religiosa do que para uma coluna de comentário político. Mesmo comentadores cuja opinião estimo e valorizo, como o católico Pedro Mexia, foram veementes nas críticas à líder do CDS-PP, remetendo até o assunto para a esfera temática da separação entre o Estado e a Igreja.

Este episódio correspondeu, portanto, a uma estranha manifestação de um equívoco a que as sociedades europeias se prestam cada vez mais: a falsa ideia de que, por termos um Estado laico, os cidadãos devem colocar de lado a fé quando lidam com assuntos públicos. Como se a fé fosse uma traquitana com um interruptor on-off para ligar e desligar de acordo com o assunto em mãos…

Entendamo-nos: a laicidade dos Estados representa um grande avanço das sociedades ocidentais, sociedades que se querem plurais e verdadeiramente democráticas. Na prática, a laicidade significa que o Estado não pode impor, veicular ou promover uma religião particular, antes trata todas as confissões religiosas com o mesmo tipo de crivo e com o mesmo grau de cooperação. Significa, também, que nenhuma confissão religiosa tem ascendente sobre os órgãos de governação; pelo contrário, as confissões religiosas submetem-se ao Estado em todas as matérias legais, gozando, no demais, de liberdade para praticar a fé e para se pronunciar a respeito dos assuntos públicos.

De facto, e ao contrário da tese que vai ganhando força hoje em dia, a laicidade dos Estados não significa que as confissões religiosas e os indivíduos religiosos tenham de ser remetidos ao silêncio quando se trata de construir a polis. Até porque essa tese assenta numa grande falácia: a ideia de que é possível ser-se neutral em matéria de fé. Ora, na realidade, não existe neutralidade, pois não há nenhum ser humano que viva desprovido de fé.

O ateu e o agnóstico, assim como o religioso, acreditam num determinado conjunto de premissas que definem a respetiva cosmovisão e sustentam as suas perspetivas sobre os assuntos públicos. Podemos até dizer que essas premissas constituem, de forma consciente ou não, as bases de fé do indivíduo, quer sejam ditadas por um livro sagrado, por uma experiência religiosa particular, por uma ideologia político-partidária ou por uma filosofia secular. Neste sentido, não existem seres humanos ‘arreligiosos’ e não podemos aceitar que se proponha essa suposta ‘arreligiosidade’ como o estado default do ser humano.

Procuremos ilustrar este ponto trazendo à baila um assunto que está na ordem do dia: o cristão que se opõe à legalização da eutanásia é tão susceptível de basear a sua posição em argumentos profundamente embebidos de fé quanto o ateu que advoga a eutanásia. Porque se a fé cristã favorece uma determinada visão da sacralidade da vida humana, também a posição do ateu é influenciada por aquilo que ele crê relativamente à vida humana.

Portanto, o debate público não pode ser um debate no qual se calam as fés pois tal debate é uma impossibilidade prática. O debate público tem de procurar consensos de forma participativa, dando voz a todos os indivíduos e grupos, independentemente da respetiva fé.

Promover a falácia de que é possível ser-se neutral em matéria de fé parece-me, na verdade, uma tentativa de monopolizar a arena pública, excluindo ou calando vozes que, sustentadas numa determinada fé religiosa, sejam dissonantes do status quo. A vitória desta falácia não significará, portanto, um Estado mais laico – por mais paradoxal que isto possa parecer aos crentes na neutralidade, a vitória desta falácia representará a vitória de um fundamentalismo tão nefasto quanto os fundamentalismos do passado que o verdadeiro laicismo quis combater.

Ora esta falácia tem peregrinado na consciência europeia desde há bastante tempo e parece agora ganhar uma força excessiva e perigosa, cavalgando esta nova era em que voltam a assomar os fantasmas totalitários de eras passadas.

A coberto da luta contra o radicalismo islâmico, e enquanto são tomadas medidas para forçar a integração das comunidades muçulmanas nas cidades europeias, ganha força um discurso que não é apenas laico: é, não raras vezes, antirreligioso.

Na semana passada foi notícia a aprovação de um novo pacote de medidas relativas à imigração por parte do Governo da Áustria. Diz o Expresso que no documento aprovado pelos ministros austríacos se encontra a seguinte afirmação: “aqueles que não estão preparados para aceitar os valores do Iluminismo terão de abandonar o nosso país e a nossa sociedade”.

Eu não estava cá para ver, mas tenho a percepção de que o Iluminismo, nascido no seio da filosofia francesa, teve sempre o seu quê de fundamentalista. Ainda assim, foi responsável por muito do progresso científico, e também político e social. Ainda hoje colhemos, no Ocidente, bons frutos da revolução utópica da ‘liberdade, fraternidade e igualdade’, mesmo que alguns dos frutos tenham amargado com o tempo…

Mas aceito eu os valores do Iluminismo atual? E o que é, hoje, o Iluminismo? É uma Europa que não dá liberdade à mulher para usar burkini numa praia francesa? É uma Europa em que a extrema direita vai ganhando adeptos com um discurso de fricção e conflito social? É uma Europa feita de desigualdades económicas gritantes?

Não se dará o caso de que este ‘Iluminismo’, referido levianamente pelos ministros austríacos, seja hoje não mais do que a tal ideologia que pretende criar um espaço público inacessível à fé religiosa?

Talvez eu esteja a ler no documento austríaco muito mais do que ele pretende significar, mas foi com alguma estupefação que me deparei com aquela frase. Fiquei a matutar se teria ou não de fazer as malas caso tivesse sido o Governo do meu país a empurrar os não iluministas para a porta de saída… (Bom, como até me encontro fora do meu país, poupava essa dor de cabeça.)

Posto isto, e voltando à Assunção Cristas, devo dizer, de passagem, que não sou eleitor do CDS-PP e que Assunção Cristas não me convence enquanto líder de um partido que terá de mudar muito aos meus olhos para se descolar do terrível legado deixado por Paulo Portas.

Mas o repto de Assunção Cristas e as reações que se seguiram fizeram-me questionar desde quando é que passou a ser pecado misturar amor e política. Porque é que a linguagem da política há de ser, apenas, o economiquês? Não haverá espaço para o transcendente quando construímos a coisa pública? Não terá cabimento hoje, numa era em que tendemos para os extremismos, a figura de Martin Luther King Jr. como valioso modelo e referência no universo político?

“Mas, embora tenha ficado inicialmente decepcionado ao ser classificado como extremista, continuando a pensar sobre o assunto, gradualmente extraí certa dose de satisfação do rótulo. Não era Jesus um extremista do amor: “Ame seus inimigos, abençoe aqueles que te amaldiçoam, faça o bem àqueles que te odeiam e reze por aqueles que desprezivelmente te usam e te atormentam”? Não era Amos um extremista da justiça: “Deixem a justiça fluir como as águas e a probidade como um rio que nunca pára”? Não era Paulo um extremista do evangelho cristão: “Carrego no meu corpo as marcas do Senhor Jesus”? Não era Martinho Lutero um extremista: “Aqui estou; não tenho alternativa, então que Deus me ajude”? E John Bunyan: “Ficarei na prisão até o fim dos meus dias, até que faça da minha consciência um matadouro”? E Abraham Lincoln: “Esse país não pode sobreviver metade escravo e metade livre”? E Thomas Jefferson: “Temos essas verdades como auto-evidentes, de que todos os homens nascem iguais…”? Assim, a questão não é se seremos extremistas, mas que tipo de extremistas seremos. Seremos extremistas do ódio ou do amor? Seremos extremistas da preservação da injustiça ou da extensão da justiça?”

Carta da Prisão de Birmingham, 16 de Abril de 1963

Padecemos de uma profunda falta de imaginação coletiva quando não somos capazes de nos reinventar e elevar acima do pragmatismo vigente que, de forma doentia, coloca números e estatísticas à frente das pessoas, e acima da realpolitik feita de muito show-off, muitos interesses obscuros e pouca fraternidade.

 

O dia em que descobri o que queria ser quando fosse grande

Estávamos naquele bar mesmo junto à faculdade, tantas vezes visitado para uma bica rápida e tantas outras vezes frequentado para um jogo de cartas não tão rápido. Naquele dia não era nem a bica, nem o jogo, que marcavam o compasso da minha passagem pelo bar. Era a conversa com um bom amigo. Às tantas, confessei:

– Sabes, o que percebo é que o GBU nos desafia a viver a fé com prioridades, ritmos e uma integralidade que acaba por contrastar muito com aquilo que alguns de nós aprendemos nas igrejas onde crescemos. Ainda por cima, essa vivência da fé, no GBU, concretiza-se de uma forma comunitária e torna-se muito marcante. Por isso, não sei como ficarei quando terminar a universidade e for tempo de deixar o GBU. Receio que venha a sentir um grande vazio…

O meu amigo, depois de me dar todo o tempo necessário para que eu expressasse o meu receio e a minha frustração, pegou numa caneta e num guardanapo de papel, desenhou uma circunferência, e apontou para o centro:

– Aqui é onde se situam muitas igrejas: no centro do círculo, protegidas do ‘mundo’, mas pouco dialogantes com a sociedade – disse-me de forma concisa.

Em seguida, a ponta da caneta percorreu novamente a circunferência e ele acrescentou:

– Aqui, na fronteira, é onde o GBU procura colocar-se de forma intencional, porque acreditamos que é necessário promover o diálogo com as áreas de estudo secular e, também, com a sociedade no seu todo para que a fé dos estudantes universitários floresça e se consolide.

O meu amigo continuou a aplicar aquela ilustração, falando da dificuldade que alguns graduados do GBU sentem quando terminam os estudos e são pressionados (mais que não seja pelo ambiente religioso de que fazem parte) à trajetória de ‘regresso’ até ao centro da circunferência. O preço dessa trajetória pode ser a diluição de todas as aprendizagens no caldo da antiga vivência religiosa, marcada por outras prioridades, por outros ritmos e por uma perspetiva fragmentada pela má compreensão do binómio profano/sagrado.

Aquele guardanapo de papel vem muitas vezes ao meu pensamento, ao ponto de arriscar dizer, em retrospetiva, que foi nesse dia que descobri o que queria ser quando fosse grande: queria, nada mais nada menos, do que ser um fronteiriço. Afinal, tinha sido ali, junto à fronteira, que eu havia encontrado um tesouro de imenso valor. Portanto, aplicando a chamada parábola do tesouro escondido, só me restava uma hipótese: abrir mão de tudo o resto e fixar-me onde estava o tesouro. Nada de trajetórias de regresso ao centro, nada de diluições, nada de comprometer a fé bela e plena de significado que me tinha sido dada a conhecer junto à fronteira.

Ora, para uma pessoa que cresceu muito longe das fronteiras, havia e há muito caminho a desbravar. Continuam a ser necessárias doses elevadas de desconstrução e desformatação porque muitos elementos da minha cosmovisão ainda são determinados por pontos de vista enviesados e incompletos, próprios de quem vê a realidade, difusa e distante, a partir do centro da circunferência. Como este processo de desconstrução – esta aventura fronteiriça – não pode ser solitário, procuro rodear-me de amigos que sejam mais experientes nesta coisa de desbravar caminho rumo à fronteira, amigos que conhecem melhor os mapas que lá nos levam. Ao mesmo tempo, desejo que me seja também concedida a graça de conseguir falar para dentro: convidar à aventura aqueles que ainda se movem em territórios demasiado interiores. Estou convicto de que o desafio de lançar fora o medo, abrir mão da segurança e do conforto e ser um cristão fronteiriço, em diálogo permanente com o mundo, é O Grande Desafio extensivo a todos os cristãos. Porque, como já dizia aquele a quem seguimos, “ninguém, depois de acender uma candeia, a cobre com um vaso ou a põe debaixo duma cama; pelo contrário, coloca-a sobre um velador, a fim de que os que entram, vejam a luz”.

Laodiceia

Leio a carta que escreveste para mim e confesso:
É de Laodiceia que eu parto,
Mas não quero ficar aqui.
Este ponto de partida não é o meu destino.
Caminharei.

Confesso a minha cegueira quase crónica,
Mas quero passar a ver.
Vendes-me desse remédio?
Porque eu quero ver para lá das estatísticas,
Para além de números mortos,
De informações ocas e preconceitos apressados,
De factos vazios e emoções descontroladas.
Quero o tal colírio eficaz que me mostra a realidade como ela é.
A cirurgia ocular que me dá a conhecer quem tu és e quem sou eu.

Confesso que não sou frio nem quente,
Mas quero provar da verdade que queima por dentro,
A verdade ontológica,
Servida em pão e vinho,
Servida em corpo e sangue,
Servida em mistério cruciforme.
A verdade que sabe a fogo que não se apaga,
Que tudo refina,
E que desfaz o louco que há em mim.

Confesso que é de Laodiceia que eu parto,
Mas, tenha eu ouvidos para ouvir,
Tenha eu coragem para me mover,
Caminharei.
Pois não quero ficar aqui.

Reflexões sobre a epistemologia do divino

Creio no valor da teologia enquanto exercício de reconhecimento da revelação divina na experiência humana. Desenvolvo o pensamento teológico como um caminho que busca a aproximação à verdade construída a partir do chão da vida, tecida a partir da vivência quotidiana e do drama humano. Corroboro a afirmação do Ed René Kivitz quando ele diz que Deus não é oposto das coisas, mas sim o pleno sentido de todas elas. Assim, a teologia também não há de ser independente das coisas, antes há de ser a incessante procura de encontrar Deus nas coisas.

É precisamente desses encontros com Deus nas coisas que escrevem os autores bíblicos. Um Deus que se revela das formas mais surpreendentes e inusitadas do lado de cá da realidade palpável: uma sarça ardente, uma voz calma num lugar ermo, um bebé numa manjedoura…

Creio que é esta abordagem existencialista que a Bíblia me convida a fazer porque é esta também a abordagem daqueles que escreveram os livros que a compõem. Uma revelação que é progressiva e que é sempre feita do lado de dentro da cultura e cosmovisão dos personagens bíblicos. Do lado de dentro da trama. Do lado de dentro do drama humano. Uma revelação que ganha rosto e corpo quando Jesus Cristo anda entre nós. Por Ele e por causa dele ficamos perplexos, surpresos, desconcertados e somos levados a reconstruir a forma como explicamos o mundo…

As nossas histórias podem não integrar o canône bíblico, mas são também histórias da Grande História. Histórias de homens e mulheres que vão ouvindo rumores sobre a Verdade, vão tendo encontros com a Verdade, vão caminhando lado a lado com a Verdade e por vezes, como no caminho de Emaús, nem sequer a reconhecem. Sim, nós hoje também somos pescadores da Galileia, soldados romanos e cobradores de impostos. E, tal como eles, vamos interpretando a realidade – as coisas – em resposta à Verdade que vamos descobrindo.

Ora, esta mesma abordagem existencialista leva-me a rejeitar a teologia construída a partir de premissas metafísicas desligadas da realidade e dissonantes da experiência. Faço a teologia de baixo para cima e não de cima para baixo. Faço a teologia não esvaziando o mistério que ela permanentemente nos traz e que resulta de apenas vermos em parte, e não em todo. Vemos um reflexo de Deus, um enigma fascinante, que o torna muito mais uma pergunta a abraçar do que uma resposta pronta. Rejeito, portanto, a teologia enquanto exercício de sistematização absoluta e exaustiva da verdade sobre Deus e rejeito ainda mais as tentativas de forçar sistematizações puramente metafísicas para dentro da realidade.

Neste sentido, rejeito, em particular, a sistemática de Calvino e dos seus discípulos. Rejeito-a por uma série de boas razões (porque, por exemplo, a dupla predestinação é uma ideia horrível) mas não me interessa esmiuçar aqui todas elas. Há por aí livros e blogues que o fazem muito melhor do que eu. No contexto do que já escrevi acima, abordo apenas uma dessas razões: rejeito o calvinismo pois este é construído a partir de premissas altamente dissonantes com a minha experiência.

Rejeito a doutrina da depravação total porque ela é contrária à experiência de encontrar Deus no meu próximo. Creio firmemente que toda a beleza e toda a bondade vêm de Deus, pelo que um homem que ama não pode estar totalmente depravado.

Rejeito o monergismo – a doutrina de que o homem não tem qualquer participação na sua salvação – por ser também contrária à experiência: no meu dia-a-dia eu escolho e eu sou responsável pelas minhas escolhas. É isso que eu faço. É essa a realidade que me é dada a conhecer na minha experiência. No palco da vida, eu tomo decisões, faço escolhas – grandes e pequenas – e sou responsável por elas. Quando o calvinismo nega esta realidade está a sobrepor-lhe uma doutrina fictícia e desconectada das coisas. O calvinismo eleva a soberania de Deus a um absolutismo tal que, ironicamente, na sistemática calvinista, Deus fica refém da sua própria soberania. O calvinismo aprisiona Deus. Neste aspeto, parece-me que Calvino caiu na armadilha de ser mais papista do que o Papa.

Arrisco até alinhar com Kierkegaard na sua ode à decisão enquanto faculdade que aproxima o homem do divino:

Uma decisão junta-nos ao que é eterno. Traz o eterno para dentro do tempo. Uma decisão eleva-nos com um choque do sono da monotonia. Uma decisão rompe o feitiço mágico do hábito. Uma decisão rompe a longa sucessão de pensamentos cansados. Uma decisão pronuncia a sua benção até mesmo sobre o mais fraco dos recomeços, desde que seja um recomeço real. Uma decisão é o despertar para o que é eterno.

Rejeito pois o calvinismo e muitas outras doutrinas que não sejam produzidas a partir do chão da vida. E, da mesma forma que acredito que conhecemos a Verdade no chão da vida, acredito que a fé também se expressa no chão da vida, em profunda conexão com a realidade como ela é, em profunda conexão com as coisas. Quero com isto dizer que, ao encontrarmos Deus na experiência, também é na experiência que esboçamos a nossa resposta a Deus. A fé não se concretiza, pois, na afirmação de proposições absolutas mas no acolhimento da Verdade, a um nível relacional muito mais profundo do que o meramente intelectual, e na ação que responde a essa Verdade. Conhecemos Deus dentro da realidade e é dentro da realidade que lhe damos resposta. A essa resposta chamamos fé e essa resposta está intimamente relacionada com aquilo que fazemos. Como diz o Andrew Fellows, todos temos dois sistemas de crenças: aquilo em que dizemos acreditar e aquilo que fazemos; mas o nosso verdadeiro sistema de crenças é o segundo.

Assim, nesta perspetiva existencialista, a epistemologia, a fé e a praxis andam de mãos dadas no chão da vida.

Fé cristã na era da desconstrução

É quase crónica esta necessidade de desconstruir com que a pós-modernidade me infetou. A minha cosmovisão desenhada a partir de frias muralhas de betão intransponível foi abalada pelo terramoto da constante insatisfação, pela tempestade da perene desconfiança em relação a qualquer sistemática que queira explicar o tudo e o todo através de fórmulas que são, invariavelmente, demasiado simplistas.

O pensamento da nossa era provocou brechas nas muralhas. Hoje é vê-las ruir sem clemência. Com elas caem por terra todos os edifícios anteriormente construídos, todos os edifícios que pareciam antes tão sólidos e definitivos. Hoje nada é válido, nada é definitivo, nada é absoluto.

Chego a sentir-me condenado ao vazio por esta espécie de Lei pós-moderna: nesta era nada se cria, nada se transforma, tudo se perde. A desconstrução pós-moderna é um dos poderosos motores da vigente falta de sentido da sociedade global. E se me acusarem de alimentar também esse motor, eu assumo de imediato o veredicto: sim, eu sou culpado.

Mas apresento, no entanto, a minha defesa: há uma certa inevitabilidade no fenómeno de desconstrução. Há até uma certa lógica nesta tendência de matar todas as lógicas. A complexidade da realidade em que vivemos justifica as reservas em aceitar teorias, dogmas, explicações absolutas. Somos bombardeados de todos os lados com informação e contra-informação, propaganda e manipulação, factos e boatos sem distinção. E a minha capacidade de discernimento não é suficiente para conseguir produzir absolutos a partir deste caos global.

Surge então uma pergunta inquietante: como posso viver a fé cristã na era da desconstrução? É que não me parece que a fé cristã se coadune com a permanente desconstrução. Tem de haver um ponto de inflexão. Não se pode chamar ‘caminhada de fé’ se tudo quanto há é o cepticismo.

Diante deste dilema muitos filhos da pós-modernidade têm abandonado a fé. Talvez muitos ainda acreditem em ‘algo’, talvez muitos ainda se digam cristãos, mas a vivência da fé deixou de ser um elemento definidor das suas identidades. Estes são aqueles que chegam ao deserto e ali permanecem. O conflito entre a realidade complexa e difusa e os sistemas demasiado rígidos para interpretar essa realidade podem, de facto, conduzir ao esfriar da fé, ao ponto de esta se tornar irrelevante ou nula, sobrando apenas o cepticismo.

Outra via, ainda adoptada por muitos cristãos, passa por responder à desconstrução pós-moderna através da reafirmação dos antigos sistemas. Estes são aqueles que, por medo ou por não sentirem na pele a inevitabilidade da desconstrução, nunca chegam a ir ao deserto. Mas será que esta via não corresponde, em certa medida, à tentativa de conter vinho novo em odres velhos? Será que a pós-modernidade não nos dá uma boa oportunidade de fabricar novos odres para substituir os antigos? Os odres antigos tiveram, certamente, a sua utilidade no passado. Foi com eles nas mãos que muitos tiveram oportunidade de provar o bom vinho. Mas este vinho – o Evangelho – assume novos sabores para cada geração, para cada era, para cada cultura. Poderão os odres velhos ainda contê-lo? Não se dará o caso de perdermos a essência – o vinho – quando valorizamos excessivamente os odres?

Creio que estas duas vias têm sido as mais frequentadas pelos nossos contemporâneos, mas creio também que há ainda uma terceira via. Para muitos de nós, o deserto e o vazio são um ponto de passagem inevitável. Não adianta esconder a cabeça na areia. Não adianta resistir. É ali que nos conduz a desconstrução como se de uma força irresistível se tratasse. Mas o deserto não é necessariamente o destino final. A caminhada de fé não tem de morrer ali. A desconstrução não tem de ser o absoluto e o eterno.

É bom lembrar que segundo a narrativa bíblica e segundo os antigos profetas, Deus tem um jeito especial para lidar com gente que atravessa desertos. Os profetas colocam poesia promissora na boca de Deus: Plantarei no deserto o cedro, a acácia, e a murta, e a oliveira; porei no ermo juntamente a faia, o pinheiro e o álamo. O deserto é infértil segundo a minha perspetiva humana, mas, dando crédito aos profetas, talvez seja exatamente no deserto que Deus me quer por um momento…

De facto, nesta terceira via, menos explorada mas fascinante, muitos de nós vamos descobrindo que há caminho para lá do deserto. Vamos descobrindo que em cada deserto sedento, Deus continua a plantar, a seu tempo, jardins, bosques e pomares. Vamos descobrindo uma missão que nos cabe a nós: cuidar dos jardins para neles colhermos as flores singelas e os frutos frescos que o mundo anseia provar.

Talvez daqui a umas décadas os nossos filhos venham a dizer que os jardins se transformaram em silvas, terrenos baldios que para nada servem. Talvez venham a concluir que os jardins por nós construídos também não eram a solução definitiva, também não eram odres que se mantenham sempre novos. Mas, por enquanto, deixemos que estes jardins sejam plantados, que floresçam e frutifiquem. Oremos para que, a despeito do relativismo que impera nesta era, surjam mais jardins onde o Absoluto se venha a revelar a nós e aos nossos contemporâneos.

Até porque foi também num jardim junto a um túmulo vazio que, de modo surpreendente e definitivo, o Absoluto se revelou à confusa Maria Madalena na alvorada do primeiro dia da semana.

Um infeliz Natal para o Zaratustra que há em ti

O Meu Deus é um Deus Ferido, de Tomas Halik, é uma obra que merece ser lida, pensada e digerida. Convida-nos a uma fé madura que se distancia igualmente do cristianismo escapista – o mundo é um lugar horrível e quero é sair daqui depressa – e do cristianismo triunfalista – pela fé posso resolver todos os problemas e transformar a vida num mar de rosas. Uma fé que encara a realidade de forma frontal: o sofrimento é parte inerente da realidade e somos convidados a vê-lo, aceitá-lo (não como uma inevitabilidade fatalista, mas como realidade que é), encaixá-lo… e, depois, somos convidados a desenvolver a resiliência necessária – a esperança teimosa e perene – para lidarmos com ele e, com todas as dificuldades e limitações inerentes, transformarmos o sofrimento em vida:

“Cada um deve vigiar como Maria, deve “pôr estas dores no seu seio”, cada um deve impedir que elas caiam no esquecimento, há de “conservá-las no seu coração”, mesmo se não as entender – cada um, no seu seio e no coração, deve fazê-las passar das sombras do Monte Calvário para a alvorada da manhã da Páscoa.”

A obra de Halik esboça o único caminho que me parece viável para a construção (ou intuição) de uma teodiceia cristã: nas feridas de Cristo encontramos Deus compadecido com as feridas do mundo; nas feridas de Cristo encontramos Deus a sofrer as feridas do mundo. A resposta de Deus ao problema do mal não é metafísica, mas sim corpórea. É visível no corpo desfigurado do Cristo crucificado e nas cicatrizes ainda bem vincadas no corpo glorificado do Cristo ressurreto.

Halik toma como ponto de partida o desafio de Jesus a Tomé “Olhai as minhas mãos e os meus pés e vede que sou eu mesmo” (Lucas 24:39). A confissão posterior de Tomé – Meu Senhor e Meu Deus – é surpreendente, pois é ele o primeiro homem a afirmar a divindade de Jesus. As feridas de Cristo revelam a Tomé a completa identidade do seu mestre.

A principal tese – se assim lhe podemos chamar – de Tomas Halik é que Cristo continua hoje a revelar-se nas feridas do mundo e dos homens:

“Talvez Jesus, ao reacender a fé de Tomé pelo toque nas chagas, tenha querido que ele dissesse justamente o que para mim, como que atingido por um raio, se tornou claro no orfanato de Madrasta: Onde tu tocares no sofrimento humano – e talvez só aí! – ficas a saber que eu estou vivo, que “Eu sou”. Encontras-me por toda a parte onde os homens sofrem. Não fujas de mim em nenhum destes encontros. Não tenhas medo! Não sejas incrédulo, mas crê!”

Ao longo da obra, Tomas Halik cita Friedich Nietzsche amiúde e confessa que alimenta uma grande admiração por ele. Chega quase a pintá-lo como um reformador da Igreja: por força da sua negação de Deus, crua e violenta, Nietzsche é o antagonista feroz da fé cristã que, simultaneamente, obriga a teologia a repensar-se e, quiçá, a reformar-se (pelo menos quando não reage defensivamente cavando trincheiras).

A filosofia de Nietzsche procura abalar os alicerces da cosmovisão cristã e, de facto, suponho que não foram poucos os crentes em quem a filosofia de Nietzsche provocou um terramoto avassalador. Halik recorre à Odisseia de Ulisses para explicar o efeito da filosofia de Nietzsche: é para muitos o canto terrível e sedutor das sereias que, quando escutado, atrai, muda o rumo e conduz ao naufrágio; Ulisses, no entanto, não abdica de escutar o canto das sereias, decidindo amarrar-se ao mastro do barco para que não lhe seja possível aceder ao convite delas. Halik explica que lê Nietzsche amarrado ao mastro, amarrado a Cristo. Tem assim o sangue frio necessário para afirmar que “ele não seria Nietzsche se, mesmo onde se engana, não dissesse, ao mesmo tempo, algo de profundo”.

Instigado por Halik, eu também quis ler mais de Nietzsche para além dos excertos de algumas obras suas que analisámos brevemente nas aulas de Cosmovisão Cristã e Cultura Contemporânea. Por isso tenho estado a ler a obra Assim Falava Zaratustra. Os discursos e pensamentos do Zaratustra podem ser, para o cristão, extremamente irritantes e exasperantes. Por outro lado há que dizer que é uma obra de inegável valor estético: Nietzsche não é só um filósofo, é também um poeta, um trovador do nada

Nele encontro uma crítica da religião que propositadamente ultrapassa todas as fronteiras da blasfémia. É provocante, acutilante, não pede licença para entrar no compartimento dos nossos dogmas e crenças e tentar estilhaçar tudo o que ali encontra. É o ateu que quer levar o ateísmo até às últimas consequências. O materialista que quer levar o materialismo até à sua condição de rei e senhor. Mas creio compreender Thomas Halik quando afirma que há sempre algo de profundo nos dizeres de Nietzsche.

Vejamos um discurso do seu Zaratustra:

“Da mesma maneira projetei eu também a minha ilusão mais para além da vida dos homens à semelhança de todos os crentes em além-mundos. Além dos homens, realmente?

Ai, meus irmãos! Este deus que eu criei, era obra humana e humano delírio, como todos os deuses. Era homem, tão somente um fragmento de homem e de mim. Esse fantasma saía das minhas próprias cinzas e da minha própria chama, e nunca veio realmente do outro mundo.

Que sucedeu, meus irmãos? Eu, que sofria, dominei-me; levei a minha própria cinza para a montanha; inventei para mim uma chama mais clara. E vede! O fantasma ausentou-se! Agora que estou curado, seria para mim um sofrimento e um tormento crer em semelhantes fantasmas. Assim falo eu aos que creem em além-mundos.

Sofrimentos e incompetências; eis o que criou todos os além-mundos, e esse breve desvario da felicidade que só conhece quem mais sofre. A fadiga, que de um salto quer atingir o extremo, uma fadiga pobre e ignorante, que não quer ao menos um maior querer; foi ela que criou todos os deuses e todos os além-mundos.

Acreditai-me, meus irmãos! Foi o corpo que desesperou da terra: ouviu falar as entranhas do ser. Quis então que a sua cabeça transpassasse as últimas paredes, e não só a cabeça: até ele quis passar para o “outro mundo”. O “outro mundo”, porém, esse mundo desumanizado e inumano, que é um nada celeste, está oculto aos homens, e as entranhas do ser não falam ao homem, a não ser como homem.

(…)

O meu Eu ensinou-me um novo orgulho que eu ensino aos homens: não ocultar a cabeça nas nuvens celestes, mas levá-la descoberta; sustentar erguida uma cabeça terrestre que creia no sentido da terra.

Eu ensino aos homens uma nova vontade: querer o caminho que os homens têm seguido cegamente, e considerá-lo bom e fugir dele como os enfermos e os decrépitos. Enfermos e decrépitos foram os que menosprezaram o corpo e a terra, os que inventaram as coisas celestes e as gotas de sangue redentor; mas até esses doces e lúgubres venenos foram buscar no corpo e na terra!

Queriam fugir da sua miséria, e as estrelas estavam demasiado longe para eles. Então suspiraram: “Oh! Se houvessem caminhos celestes para alcançar outra vida e outra felicidade!” E inventaram os seus artifícios e as suas beberagens sangrentas. E julgaram-se arrebatados para longe do seu corpo e desta terra, os ingratos! A quem deviam, porém, o seu espasmo e o deleite do seu arroubamento? Ao seu corpo e a esta terra.”

(…)

Transparece neste excerto o desprezo profundo que Nietzsche nutre pela religião, pelos deuses e pelos além-mundos criados pelo homem. Em particular é patente e crua a crítica ao cristianismo enquanto metanarrativa que propõe a existência de um outro mundo, uma realidade celestial alternativa à terrestre à qual se acede por intermédio do sacríficio de Cristo. Uma realidade espiritual, inumana, não corpórea.

Zaratustra exalta o corpo e a terra e mais adiante há-de dizer que “tudo é corpo, e nada mais; a alma é apenas nome de qualquer coisa do corpo”. Incorre até em afirmações nada escrupulosas a respeito dos enfermos e decrépitos. (Alguns dizem que afirmações nietzschizianas deste género inspiraram a ideologia racial do nazismo alemão mas, numa primeira leitura, não estou certo de que seja correta uma interpretação demasiado à letra das mesmas. De qualquer forma essa é uma discussão histórica e filosófica para a qual não estou minimamente preparado). Talvez se torne muito difícil encontrar uma centelha de verdade neste discurso de Zaratustra.

Estando muito longe de ser especialista em Nietzsche e conhecendo pouco da sua obra, estou ciente de que corro o risco de analisar o Zaratustra de forma simplista e equivocada. Corro o risco de projetar nele as críticas que eu próprio faço à religião e, de forma infundada, aproveitar-me dele para verbalizar essas críticas. Mas viver é correr riscos, por isso arrisquemos: há algo que me parece pertinente e verdadeiro na crítica de Zaratustra aos além-mundos criados pela religião. Há algo que me parece levemente profético nas entrelinhas dos seus discursos agressivos e exasperantes. A crítica ao “outro mundo” desumanizado e inumano, a crítica aos caminhos celestes “para alcançar outra vida e outra felicidade”, a crítica de uma religião que se reduz a esperar que a morte chegue para aceder a uma outra felicidade, uma religião que desconsidera o “corpo” e a “terra” e que promove o desejo escapista, o arrebatamento para fora da realidade cá de baixo.

Ao contrário de Nietzsche, eu não acredito que tudo seja material e que a alma seja apenas nome de qualquer coisa do corpo. Aliás, eu nem sequer acredito que as coisas mais importantes sejam em si mesmo materiais. Acredito, no entanto, que só pode ser importante, belo e verdadeiro aquilo que é materializável.

O cristianismo não é uma religião para a alma. É antes uma religião para o homem e uma alma não é um homem. (Gosto da afirmação insistente do René Kivitz: “corpo sem alma é defunto, alma sem corpo é fantasma”). O evangelho de Cristo não é uma panaceia para elevar a nossa cabeça acima das nuvens terrestres enquanto lá em baixo o sofrimento se desenrola. Parafraseando o Rob Bell, diria que Jesus não veio para nos falar de uma realidade paralela, bela e maravilhosa à qual iremos aceder quando o pano aqui em baixo fechar; Jesus veio para nos mostrar esta realidade como ela é. Para abrir os nossos olhos com o colírio que brota da cruz e que nos permite ver quem nós somos, quem é o outro e quem Ele é, apontando, ao mesmo tempo, para a redenção completa dos elementos degradados desta realidade. Também Halik reforça este ponto ao afirmar de forma taxativa que “o Deus em que acreditamos não está por detrás da realidade, antes é a profundeza da realidade, o seu mistério, a realidade da realidade.”

Não teremos nós – crentes de tradição evangélica tantas vezes herdeiros de uma teologia com elementos dualistas perniciosos – demasiada tendência para colocar a esperança no “além-mundo” desprezando a terra e o corpo? Não construímos nós, através das nossas doutrinas, expectativas e cosmovisões, um cristianismo demasiado etéreo ao qual não é dada oportunidade de se materializar? Não deveremos também encaixar pelo menos parcialmente a crítica de Nietzsche?

Creio que sim. Creio que somos culpados de alimentar uma forma de viver a fé que só tem oportunidade de se concretizar na dimensão espiritual, entendida como oposta à dimensão material e não como complemento inerente a esta. Mas não terá Cristo vindo à terra precisamente para aniquilar o fosso entre o espiritual e o material? Mais uma vez, creio que sim. Por causa de Cristo podemos concluir que, se chamamos espiritual àquilo que diz respeito a Deus, então tudo é espiritual, porque ‘Nele vivemos e nos movemos e existimos’.

Estas questões podem parecer mera filosofia teórica, mas insisto em verbalizá-las e lançá-las ao vento, por estar convicto de que a nossa cosmovisão (e os elementos filosóficos que consciente ou inconscientemente lhe estão subjacentes) influencia profundamente a forma como vivemos. Aquilo que acreditamos acerca do corpo e da terra determina em grande medida o nosso compromisso com a realidade como ela é. Determina em grande medida a praxis que adotamos.

Por isso, arrisco dizer que, num certo sentido, o cristianismo é a religião da matéria. É a religião que precisa de corpo para se concretizar, para acontecer, para ser. Porque o amor só é amor se se materializar em abraço fraterno e mãos estendidas. A fé só é fé se se materializar em atos concretos. A esperança so o é se aquele que dela bebe agir como que guiado por ela.

Imbuído de espírito natalício, recordo ainda, e mais uma vez, que o cristianismo assenta na crença de que até Deus se “materializou” porque só assim poderia Ele revelar-se ao homem que é alma e corpo. Quase parece que Deus quis dar razão ao Zaratustra: as entranhas do ser não falam ao homem a não ser como homem.

A Palavra fez-se carne para a podermos ver e ouvir. Foi com essa finalidade que um menino nos nasceu. (Podíamos também explorar a metáfora usada por Paulo para explicar a Igreja: a Igreja há-de ser no mundo o lado visível e palpável do amor divino, o corpo.)

A encarnação é o grande mistério e paradoxo da história. O busílis da fé cristã. Por causa dela somos levados a valorizar o corpo e a terra não cedendo aos apelos das religiões (mesmo que se digam cristãs) que se desenrolam num plano puramente celestial desligado do chão da vida. A atitude de desprezo ou indiferença perante o mundo material é uma herança do dualismo platónico e não é compatível com uma cosmovisão assente no mistério da encarnação de Deus.

Em sentido inverso, é também a encarnação que derrota o Zaratustra que há em mim. Todas as tendências agnósticas ou ateístas calam diante do mistério da manjedoura. Juntamente com os magos, prostro-me junto ao berço de palha onde descansa a Palavra que criou todas as coisas e, ali, o apelo do ateísmo esfuma-se. Há uns tempos, numa entrevista ao Público, D. Manuel Clemente providenciou uma magnífica síntese da qual agora me aproprio:

“Não me convence nada do céu que eu não veja na terra. O que a palavra Deus poderia sugerir no abstracto é no concreto que a apanho. O verbo de Deus encarnado, para mim, é que é a religião.”

O brilhantismo louco de Nietzsche levou-o à rejeição total da religião e à elevação do próprio homem à condição de ser supremo. Mas ao ler o Zaratustra não posso deixar de pensar que ele está ainda assim mais próximo desta religião – o verbo de Deus encarnado – do que das religiões dos caminhos celestes que ele tanto critica.

Creio que a religião de que nos fala o Natal – o verbo de Deus encarnado – é a resposta cabal a todas as religiões e a todas as críticas religiosas. O Natal traz de volta à terra e ao corpo o Anti-Zaratustra que oculta a cabeça nas nuvens celestes sem dar crédito à realidade cá em baixo. O Natal é também a resposta para o Zaratustra que não se deixa convencer por nada do céu que não veja na terra: o verbo de Deus encarnou precisamente para ligar céu e terra ou, no dizer de Tomas Halik, para nos revelar as profundezas da realidade, a realidade da realidade.

Que seja, pois, verdadeiramente Natal para nós e morram os Zaratustras e os Anti-Zaratustras que nos habitam.

 

Microcosmos

 

O Júlio chegava ao bar e já lá estavam os companheiros habituais a ocupar os bancos dispostos em fila paralela ao balcão. Cada um deles com a respetiva caneca 3/4 ainda meio cheia. Abancava no único lugar vago, cumprimentava a trupe e juntava-se à amena cavaqueira sobre tudo e sobre coisa nenhuma. “O que vais querer hoje?” perguntava-lhe o barman só em jeito de quem confirma o que já sabe. “Quero o do costume!”.

Assim, noite após noite, o barman servia-lhe o do costume. E ali ficava ele mergulhado naquela cavaqueira cujo único interesse residia no facto de não ter interesse nenhum e cujo único fruto era a inconsciente ocupação do tempo.

Assim viveu o Júlio durante muitos anos. Assim passou as noites durante séculos. Foi uma eternidade cuja génese se perdeu no entulho da memória e cujos efeitos se metastizaram na mente e no corpo. Um niilismo que tudo corrói, uma panaceia que tudo adormece. Uma vida a consumir o do costume e o de sempre.

Às tantas o barman deixou de confirmar a preferência do Júlio e, sem consulta prévia, atestava-lhe a caneca 3/4 com o do costume mal a sua silhueta se fazia ver no alpendre do Microcosmos. O barman já não apontava para a lista de bebidas afixada na parede. Se o Júlio se satisfazia com o do costume, era isso que lhe iria servir. Afinal, o que interessa ao barman é sobretudo fidelizar os clientes e, se for com pouco esforço, melhor ainda!

Ora um dia, por qualquer razão corriqueira que não interessa ao caso, o barman fez saber que não poderia comparecer no serviço. A informação provocou algum alvoroço na gerência: era necessário recrutar um substituto para garantir que a clientela não se dispersava pelos bares concorrentes nem sequer numa única noite. Colocaram-se anúncios: “o Microcosmos precisa de barman experiente para esta noite”.

Pessoas da terra e pessoas fora da terra responderam ao anúncio. Deu nas vistas um candidato em particular: um homem de tez muito morena, pele queimada pelo sol, cicatrizes profundas resultantes certamente de algum grande mal que outrora lhe sobreveio. Não era, decerto, daquelas paragens. Não era um homem bonito e, na verdade, nada havia nele para que nele se reparasse, não fosse o facto de ser estrangeiro. Correu a informação não confirmada de que seria proveniente de alguma terra do médio oriente. Disse de si mesmo que era hábil, capaz de servir no bar e conhecedor de cocktails e bebidas nunca antes dadas a provar naquelas paragens capazes de saciar sedes para além da sede física. A forma como apresentou o seu currículo foi convincente e o homem foi contratado. (Apesar de quase deitar tudo a perder quando quis fazer crer que uma vez numas bodas de casamento tinha transformado água vulgar no melhor dos vinhos…)

Quando o Júlio entrou no Microcosmos naquela noite, o barman não lhe serviu o do costume nem o de sempre porque não conhecia as preferências de cada cliente. Via-se obrigado a perguntar a cada um: “o que vais tomar hoje?”. Quando chegou a sua vez, o Júlio respondeu: “É o do costume, em caneca ¾, se faz o favor!” E o barman, gentilmente, “Pá, desculpa amigo, eu não sei qual é o teu do costume. Tens de me ajudar sendo mais específico!”

Só nesse momento o Júlio reparou que o barman era novo ali e quis ajudá-lo. Mas verificou então que não se conseguia lembrar de qual era a bebida que todos os dias consumia no Microcosmos. A mesmice tem perigosos efeitos secundários e naquele momento o Júlio, consternado, tomou pela primeira vez consciência deles. “Não me lembro, #!”&=!$. Como é que é possível?!” As mãos lançadas à cabeça e uma perturbação crescente.

Durante alguns segundos o barman observou-o, de semblante analítico, olhar prescrutador. Depois declarou de forma decidida “Creio que passaste já demasiados anos a beber o do costume. Trago comigo a bebida ideal para ti.” Dito isto, baixou-se para retirar uma garrafa empoeirada de um caixote guardado na sombra atrás do balcão.

“O que é isso?” indagou o Júlio. “Prova apenas. Confia em mim! O primeiro travo pode ser amargo por nunca o teres provado, mas depois isto vai saber-te muito melhor que o de sempre!” Disse o barman com um certo tom de autoridade.

O Júlio hesitou. Não era dado ao inusitado. Não era dado à mudança. Mas sentia a garganta seca e tinha, definitivamente, de beber alguma coisa.

O barman serviu a bebida num copo pequeno: “Para primeira vez basta uma porção pequena!” O Júlio provou sem se pronunciar. Começou a travar conversa com os companheiros do costume e o barman deixou-o entregue a esse convívio e a saborear a bebida pouco a pouco.

À medida que se falava de tudo e de nada, o Júlio dava conta de que aquelas conversas tão batidas não lhe caiam bem naquela noite. Alheou-se da conversa e, bebendo um gole de vez em quando, começou a olhar à sua volta e a reparar em coisas que nunca tinha reparado no Microcosmos. Nas pessoas e no seu ar cansado. Nos motivos artísticos que decoravam o bar com ar de quem já há muito clamava por restauração. Na música de fundo um pouco pesada, repleta de guitarras e baixos com distorção máxima. Finalmente, a sua atenção posou sobre o barman que continuava numa azáfama a servir bebidas.

Estranha noite aquela em que pela primeira vez se sentia presente naquele bar frequentado durante anos e anos. Sentia que naquela noite, na presença daquele barman desconhecido e por culpa da bebida que ele lhe deu a provar, algo se tinha desencadeado e estava realmente a ver o Microcosmos como nunca antes tinha visto. Essa visão trazia, de facto, um travo amargo, mas estranhamente bom. Trazia-lhe um vislumbre de uma lucidez que nunca tinha experimentado até aí.

“Então?” perguntou-lhe o barman ao passar por ele. “Que tal a minha bebida?”

Em vez de responder, o Júlio deu por si a perguntar de chofre “Quem és tu? Tens de me dizer quem és tu!”. Calou-se e corou imediatamente por dar conta de que colocara a questão de forma indelicada. Nem sequer percebia de onde é que ela tinha saído. Parecia que uma parte de si, algures num âmago do ser que ele até então desconhecia, sentia a urgência da resposta.

O barman não se atrapalhou mas a resposta foi enigmática. Reagiu como se estivesse à espera daquela interpelação e disse apenas “eu sou o barman”. E continuou a preparar cocktails e a distribuir bebidas.

O Júlio emudeceu. Estava cada vez mais atordoado e cada vez a sentir-se mais presente. Teve a clara percepção de que na afirmação “eu sou o barman” se escondia uma verdade profunda. O Microcosmos pareceu-lhe de repente todo um quadro surrealista, um caleidoscópio de figuras e sons difusos, a girar em torno daquele barman que constituía ali a única realidade concreta. A única verdade concreta.

A noite já ia alta quando o pessoal começou gradualmente a despedir-se. Cada um dirigindo-se à sua casa como sempre.

O Júlio deixou-se ficar. O barman limpava as bancadas, arrumava louças, organizava as garrafas, assobiando baixinho uma melodia engraçada. Quando a coisa estava composta, reparou finalmente no Júlio que o olhava fixamente e que tinha diante dele o copo vazio depois de sorver as últimas partículas da bebida. “Então, gostaste?”

“Esta é a bebida mais estranha que já provei. Gostava muito de continuar a beber dela, mas amanhã estará de volta o outro barman e duvido que ele a saiba preparar. Vendes-me mais disto? Quanto tenho de pagar?”

“Ouve, tenho todo o prazer em oferecer-te esta minha especialidade. De graça. Tens aqui uma garrafa por estrear. Bebe só uma porção de vez em quando. É suficiente!” O barman estendeu-lhe uma garrafa empoeirada semelhante àquela que ele tinha visto sair de um caixote escondido atrás do balcão.

Júlio pegou na garrafa e um rótulo curioso chamou-lhe a atenção. Em destaque estava uma palavra formada por 9 caracteres gregos. Em baixo lia-se ‘Metanoia: bebida para uma transformação da consciência’.

O barman já se tinha dirigido para a porta. “Vamos?” A mão dele erguida, pronta a desligar as luzes, esperava apenas que o Júlio se encaminhasse também para a saída. Obediente, apertando com força a garrafa contra o peito, o Júlio saiu para a rua e o barman logo atrás dele. A escuridão de uma noite sem lua dominava o bairro. Mas nunca antes o Júlio tinha visto tanta luz.

Caiam lágrimas

Na Cidade Luz a noite fez-se negra. A morte e o terror irromperam de forma absurda, cruel e arbitrária. A perplexidade e a revolta apagam todas as luzes, calam todas as vozes, sufocam todas as lógicas de sentido e de esperança que buscamos na vida.

Sobram as lágrimas. Que caiam as lágrimas. Melhor lágrimas soltas do que palavras e atos de acusação equivocados e extemporâneos. Melhor lágrimas soltas do que revolta cega que não distingue vítimas de culpados.

Hoje renovou-se a manifestação cíclica de que a humanidade se mata a si mesma. A humanidade só o é se for una. Portanto, somos uma humanidade que não o é. A humanidade só será humanidade quando a  igualdade, a fraternidade e a liberdade se universalizarem e absolutizarem não nas constituições dos países ou nos pactos internacionais, mas nos corações de todos os homens e mulheres. A visão utópica que catalisou a revolução francesa traz sim indícios do que é ser humanidade, embora a concretização desse visão tenha sempre ficado aquém. Visão essa que hoje foi, mais uma vez, ferida e morta. Ferida e morta em salas de espetáculos, em esplanadas, ruas e avenidas da bela cidade. Ferida e morta porque parte da humanidade persiste na absolutização do ódio e porque parte da humanidade, em reação, persiste na absolutização da vingança, do olho por olho e dente por dente.

O que fazer? O que dizer? Como agir neste mundo onde o absurdo e até o diabólico parecem imperar?

As respostas esfumam-se sem chegar à tona. Não ultrapassam o nó que se forma na garganta, o aperto que dói no coração. Mas talvez seja melhor assim. Talvez seja melhor o silêncio. Que caiam apenas as lágrimas. Que delas se encha a noite negra, que delas se encham as nossas casas. Que caiam apenas as lágrimas. Que com elas se lave o sangue e as feridas das vítimas que são também nosso sangue e nossas feridas. Que caiam apenas lágrimas nesta noite escura em que percorremos com perplexidade a via dolorosa do luto, da ausência de respostas, da impotência.

Talvez venhamos a perceber que de uma outra Via Dolorosa já anteriormente percorrida resulta a única certeza que podemos ter: a certeza de que a vida é mais poderosa do que a morte; a certeza de que o amor, aparentemente fraco e impotente, vence o ódio; a certeza de que a humanidade verdadeira é possível pois o primeiro de entre os verdadeiros homens manifestou-se, enfim, na alvorada do terceiro dia.

Evolução, Morte e Vida

É passado o tempo em que eu pensava que para defender a fé cristã tinha de ser um acérrimo opositor do evolucionismo. Lia livros que explicavam como a teoria da evolução se tinha imiscuído nos meios académicos como uma divagação ateísta travestida de ciência. Aceitava a falsa ideia de que o evolucionismo se impunha como uma forma de afrontar a cosmovisão cristã da nossa sociedade ocidental.

Creio que nunca cavei trincheiras em torno do criacionismo em 6 dias literais nem da hipótese da terra jovem. Estava já recetivo a uma interpretação mais flexível do livro do Génesis, segundo a qual cada dia da criação poderia significar 1.000 anos ou 1 milhão de anos, por exemplo. Mas cavei trincheiras em torno da não-evolução, recusando-me a considerar a hipótese de que a macroevolução pudesse ter desempenhado um papel no processo da criação.

Hoje percebo que a minha abordagem se baseava em diversos equívocos:

  • Pressupostos muito rudimentares e equivocadamente rigídos sobre a natureza e o comportamento da Bíblia;
  • Uma atitude demasiado crédula em relação aos livros que lia e à acusação que os autores faziam de que os cientistas evolucionistas deturpavam propositadamente os seus dados, experiências e estudos;
  • A aceitação pouco reflectida da premissa de que o criacionismo se esvai automaticamente com o evolucionismo.

Não foi da noite para o dia que a minha perspetiva mudou. Foi um processo lento, sendo difícil dizer quais as razões e os motores dessa mudança. Terá passado certamente por uma nova compreensão acerca da natureza da Bíblia, compreensão ainda em permanente construção. (E se calhar fez diferença também o álbum dos Gungor que lançaram o magnífico A Creation Liturgy, mostrando que se pode acreditar na evolução e ser um poeta da criação.)

Não pretendo agora fazer a defesa do evolucionismo, voltando a cavar trincheiras desagradáveis e infrutíferas. Mas defendo o seguinte: que parece ser um mito a incompatibilidade entre o evolucionismo e o cristianismo.

Acredito que toda a verdade – venha ela da Bíblia, da ciência ou da nossa vida diária – é verdade de Deus. Se A nos parece verdade mas, ao mesmo tempo, parece colocar em causa a fé cristã, não é bom reagir em auto-defesa dizendo que A tem de ser forçosamente falso. É melhor investigar: será que A é mesmo verdade? E será que a veracidade de A coloca mesmo mesmo em causa a fé cristã? Isto chama-se honestidade intelectual. E mesmo que o processo desague na assustadora conclusão de que, por um lado, A é mesmo verdade e, por outro lado, é mesmo incompatível com o cristianismo, será que não podemos aprender a conviver com a aparente contradição? Será que não é também essa capacidade de conviver com o paradoxo que merece o nome de ? (E tantos paradoxos que o cristianismo tem!)

(Importa também lembrar a nós mesmos que as conclusões lógicas produzidas pela nossa mente são falíveis – porque é falível a nossa mente – pelo que aquilo nos parece contradição talvez na realidade não o seja.)

Assim, tenho hoje uma predisposição para crer na ciência, na biologia, na astrofísica, nas pistas e conclusões fascinantes que nós meros homens vamos obtendo sobre a forma como funciona este universo misterioso, magnífico, assombroso. E mesmo que seja feita uma quantidade enjoativa de má ciência (basta atentar aos estudos patetas que nos entram pelo facebook diariamente sobre encher chouriços) será que não devemos dar crédito às teorias científicas quando elas reunem o consenso geral das mentes científicas mais brilhantes?

Portanto, tenho hoje, como disse, uma predisposição para crer na ciência. Aceito a possibilidade de que o evolucionismo seja, atualmente, a melhor explicação para a origem das espécies. Simultaneamente, não deixo de acreditar que, qualquer que tenha sido o processo que nos trouxe aqui, foi supervisionado pelo Deus Criador. Talvez tenha sido ao longo de milhões e milhões de translações que Ele moldou este mundo e fez evoluir a vida que nele prolifera, desde os mais pequenos microorganismos, até aos extintos dinossauros. Tudo isto Ele foi pintando lentamente na tela misteriosa que é a Terra: esta possibilidade de uma criavolução poética não belisca a minha fé cristã.

Se por um lado muitos cristãos evangélicos continuam entrincheirados a travar a velha batalha que me parece há muito perdida, por outro lado é cada vez maior o número de cristãos que têm chegado a esta conclusão: a evolução não belisca necessariamente a fé cristã. Se toda a verdade vem de Deus, a verdade produzida pela ciência não é menos verdade do que a verdade produzida pela teologia. Claro que o mundo não se torna subitamente cor-de-rosa para quem aqui chega. Surgem novos desafios: até que ponto é que o evolucionismo abala as doutrinas cristãs?

Reparem que traço uma distinção intencional entre abalar doutrinas cristãs e abalar a fé cristã: em última análise, a fé do cristão não é baseada ou dirigida para a doutrina, mas para a pessoa de Jesus Cristo. Mesmo que uma doutrina morra – ao longo da História da igreja já muitas doutrinas, filhas do seu tempo, nasceram, cresceram, envelheceram e morreram com justiça – Cristo permanece vivo.

Ora um dos assuntos mais controversos quando se trata de conciliar evolucionismo e teologia cristã diz respeito à origem e à natureza da morte. Os cristãos, sobretudo das tradições protestantes, habituaram-se a sistematizar o Evangelho em pontos ou etapas: Criação; Queda; Jesus; Juízo Final. Nesta sistematização, a morte é teologicamente encarada como um resultado direto da Queda do homem (aquele história milenar que se pode ler no Génesis sobre Adão, Eva e o fruto proibido). Diz a teologia criacionista que a Criação era inicialmente perfeita, convivendo em total harmonia. A morte estava ausente do mundo. Depois Adão e Eva pecaram e trouxeram condenação para eles próprios e também para a natureza: animais e plantas passaram a destruir-se uns aos outros e a harmonia transformou-se num violento caos.

Porém, no evolucionismo a morte é tida como um aspeto essencial do mecanismo de evolução das espécies e, obviamente, a morte teria de estar presente no mundo desde o início do processo. Assim, o evolucionismo coloca em causa a sistematização do Evangelho, obrigando-nos a revê-la. (Devo confessar que considero pertinente a revisão desta sistematização independentemente de aceitarmos ou não o evolucionismo. Os 4 Pontos podem ser uma ferramenta introdutória enquanto modelo explicativo do Evangelho, mas são também de utilidade muito limitada e muito simplistas.)

O problema da morte é bicudo para os cristãos evolucionistas! Eis algumas das ideias sugeridas para o resolver (cada uma delas traz consigo fragilidades e dificuldades extra que opto por não abordar aqui):

  1. A morte física está presente na criação desde o início e para todas as criaturas, não sendo consequência do pecado. A morte resultante da Queda é apenas a morte espiritual.
  2. A morte física está presente na criação desde o início e para todas as criaturas que foram evoluindo até surgirem hominídeos e, mais tarde, homo sapiens. Algures no processo Deus decide fazer um pacto com um casal de humanos nos quais coloca a sua imagem e semelhança. E é para estes seres humanos e os seus descendentes que a morte (física e espiritual) se constitui como um resultado da Queda.
  3. A morte sempre esteve presente na criação para todas as criaturas e a Queda relatada no Génesis não é mais do que uma explicação simbólica daquilo que a humanidade (como um todo) e cada homem (individualmente) obtém pela má utilização do seu livre-arbítrio.
  4. Outros?

Em relação a este imbróglio teológico não tomo para já qualquer posição. Pretendo apenas partir daqui para dizer que deste género de ideias já vi resultarem perspetivas sobre a morte que me incomodam, num incómodo que talvez seja mais filosófico e existencial do que teológico.

Há uns tempos li um texto em que o autor, cristão evolucionista, fazia uma espécie de elogio da morte (não me lembro do autor). Para advogar a sua ideia de que a morte está presente na criação desde o início e tentar compatibilizar essa ideia com a bondade da criação, ele apresentava a morte como algo positivo. Como se fosse um processo de reciclagem desejável. Ou como uma forma de libertação da alma na linha do pensamento platónico. (É certo que o apóstolo Paulo por vezes parece incorrer numa espécie de platonismo, mas creio que é mais intenção dele opor-se a essa corrente do que advogá-la. Algo que fica claro, aliás, na afirmação de que Cristo ressuscitou em corpo!)

Eu não consigo conceber a ideia de que a morte é positiva. No íntimo da minha alma existencialista abomino a morte. Todas as formas de morte. Mesmo sendo eu, por vezes, um veículo dessa mesma morte quando me trato mal a mim mesmo, ao outro ou ao planeta.

Detesto a deterioração que se instala no meu corpo, nos meus ossos, nas minhas entranhas. É a vida que desejo e que anseio. Torrente de vida fresca e abundante, plena e esfuziante. Eterna dança de júbilo e amor!

Não quero morrer,
quero viver mais,
quero viver sempre
e abraçar o mundo
e abraçar todos!

A minha alma recusa uma cosmovisão em que a morte seja alfa ou ómega.
Para a minha alma, que clama por eternidade, a morte é o grande inimigo.

Convivo então com esta ambiguidade. Com os dados de que disponho tenho de afirmar que é altamente provável que o evolucionismo seja ciência da boa e verdadeira. De alguma forma, isso significa que a morte está cá há mais tempo do que nós, cristãos, pensávamos. Quanto às ramificações teológicas, podem ser profundas e dar algumas dores de cabeça, mas temos uma vida inteira para as explorar e tentar apaziguar a mente quanto às contradições que vão surgindo.

Mas é na alma que as ramificações deste assunto mais magoam. Ora aquilo que de absoluto prevalece no meio destas considerações – e que me traz oxigénio à alma – é que Jesus – aquele em quem assenta a minha fé – venceu a morte!